“Foi o trabalho mais recompensador que já tive até hoje.”

Maria Aparecida Mello Fontes, tradutora de O Monge, de Matthew Gregory Lewis, lançamento da Pedrazul de fim de ano, e de Os Filhos da Abadia, da autora irlandesa Regina Maria Roche, lançamento previsto para 2017, fala da sua experiência como tradutora, dos encantos da profissão e de sua paixão pela literatura.

“A tradução parece que é um trato que a gente faz com o autor, de dar continuidade ao trabalho realizado em outros tempos, levá-lo para outros povos e não deixá-lo morrer.”

maria-aparecida-mello-fontes-1

Como foi traduzir O Monge? E como está sendo traduzir Os Filhos da Abadia?

Tradutora: Eu já havia trabalhado com algumas traduções técnicas e publicitárias, mas O Monge foi minha primeira tradução literária. A primeira sensação foi a responsabilidade de fazer um trabalho de qualidade, respeitando o texto original, mas proporcionando uma leitura atual e prazerosa. A linguagem de época requer muita pesquisa e, também, muita imaginação. Mais de uma vez eu me vi viajando no tempo, visitando os lugares descritos no livro e sentindo as emoções que os personagens sentiam. Por alguns meses da minha vida eu testemunhei as aventuras de Ambrósio e me surpreendi com o desfecho dos acontecimentos. Foi o trabalho mais recompensador que já tive até hoje.

Sabemos que a tradução de Os Filhos da Abadia (Oscar e Amanda) ainda não está concluída, mas como há muita expectativa sobre a obra. Pode falar um pouco sobre ela?

Tradutora: Como disse, ainda estou bem no início, na fase de me apaixonar pelos personagens, portanto, ainda não tenho uma opinião formada sobre a tradução deste livro. Mas, para os apaixonados pela obra, ressalto que estou amando. Embora a obra também seja classificada como literatura gótica, ainda não vi muitos elementos que comprovem o estilo, a não ser a abadia em si e um casamento secreto realizado à meia-noite em uma velha capela que esconde algumas sepulturas. Aliás, esse assunto despertou uma questão: será melhor ler todo o livro antes de traduzi-lo, ou ir traduzindo e se surpreendendo com os fatos que vão surgindo à medida que avançamos o trabalho? Como a obra é muito extensa (600 páginas), decidi já iniciar a tradução. Embora o primeiro capítulo narre o retorno de Amanda ao lugar onde cresceu, a história viaja no tempo para um passado no qual Oscar e Amanda ainda não eram nascidos e eu estou muito ansiosa para conhecê-los melhor e caminhar com eles entre os encontros e desencontros até o final, feliz, espero. Além disso, a descrição detalhada dos cenários e das características dos personagens é realmente cativante. O livro também faz muitas referências a um antigo poeta e as notas de rodapé deverão ajudar o leitor a compreendê-las.

Teve dificuldade para encontrar o estilo dos autores?

Tradutora: Não, no caso de O Monge eu fiz muita pesquisa sobre as críticas que a obra recebeu, sobre as críticas que o autor recebeu, qual foi a sua inspiração para escrever o livro e, assim, desde o início eu já sabia como seria o trabalho. Já a linguagem de Os Filhos da Abadia é mais fácil e a tradução flui melhor, mas há muitas interrupções para pesquisa, como foi mencionado no tópico acima.

 Em sua opinião, é importante para o tradutor gostar do gênero literário da obra que traduz?

Tradutora: Sim, acho fundamental. Embora eu tenha muito mais familiaridade com o século seguinte, principalmente a partir da rainha Vitória, mesmo assim estou adorando a oportunidade para obter mais conhecimentos sobre o período anterior. Adoro história e a tradução de obras de séculos passados me ajuda a compreender melhor alguns fatos e pessoas.

Teve alguma surpresa com a história durante a tradução? O que lhe encantou neste trabalho?

Tradutora: Muitas surpresas, a literatura gótica foge um pouco da tradicional e a mocinha, por exemplo, nem sempre é salva no último segundo. O final é esperado, mas surpreendente.

 Sabemos que a leitura de um livro pode mudar para sempre uma pessoa, a tradução de uma obra também?

Tradutora: Com certeza. Por exemplo, com O Monge eu descobri que adoro a estética gótica e os diálogos finais da obra de Matthew Gregory Lewis mudaram a minha maneira de ver a vida, de entender a fé. Espero que acrescente algo aos leitores também.

 Quais dicas daria para quem quer ser tradutor?

Tradutora: Dominar os idiomas, tanto o da fonte quanto o de destino. Ler muito, ser curioso, não ter preguiça de fazer pesquisas. Querer saber como as casas eram iluminadas no século XVIII é só um exemplo do trabalho de um tradutor literário. Eu considero o trabalho mais artístico do que técnico e a cultura do tradutor é a base para o sucesso da tradução.

maria-aparecida-mello-fontes

Em sua opinião, qual a maior gratificação de um tradutor?

Tradutora: Ver a obra terminada, mesmo se não tivesse meu nome, eu ficaria feliz. Parece que é um trato que a gente faz com o autor, de dar continuidade ao trabalho realizado em outros tempos, de levá-lo para outros povos, de não deixá-lo morrer. Mas ter o meu nome impresso na obra, também me faz feliz. Torna-me imortal.

Visite o site www.pedrazuleditora.com.br e conheça as nossas publicações. Assista a entrevista no canal oficial da Pedrazul no YouTube.