Ambrósio: vítima ou vilão?

Por Maria Aparecida Mello Fontes

É uma verdade universalmente reconhecida que um padre não pode se casar. Mas será que foi sempre assim? E por quê?

A história traz documentos que provam que o celibato já existia nos primórdios da Igreja. Na verdade, desde o início homens casado podiam se tornar padres, mas eles deveriam se separar de suas esposas antes disso. Então não se tratava de celibato, mas abstinência, pois já haviam conhecido os prazeres da carne. A regra do celibato como a conhecemos foi determinada por Gregorio VII em 1073, declarando que o matrimônio dos sacerdotes era herético, porque os distraía do serviço ao Senhor e contrariava o exemplo de Cristo. Há quem diga que a decisão foi tomada para evitar que os bens dos bispos e sacerdotes casados fossem herdados por seus flhos e viúvas em vez de beneficiar a Igreja. Também havia outra questão: o matrimônio era sagrado e, portanto, sacramentado. Assim, não era certo para um homem abandonar sua esposa para ser ordenado.

Em O Monge, de Matthew Gregory Lewis, Ambrósio é seduzido por Matilda. No lugar da extrema-unção que deveria trazer a paz necessária ao moribundo, o padre concorda com a transgressão, traindo seus votos de castidade e aproximando o prazer do sexo à morte da sua vítima. Na verdade, Ambrósio parace ter um intenso desejo físico pelas mulheres que se encontram inconscientes ou à beira da morte. Seria essa uma forma de perversão sexual? Talvez a explicação seja simplesmente a chance de escapar impune, sem abalar sua reputação de homem devoto, ou seja, sem deixar testemunhas para os seus pecados.

Mas será que o celibato é possível ou mesmo natural?

Enquanto alguns acreditam que Ambrósio deixou-se seduzir pelas tentações do mal, eu prefiro crer que não se trata da presença do diabo na história, mas sim da ausência de Deus. Será que o celibato é assim tão importante aos olhos de Deus?

Aliás, essa é uma boa maneira de ler O Monge. Além dos horrores por trás da história de alguns personagens, tente encontrar a presença de Deus na vida deles e perdoe Ambrósio por ao menos um dos seus pecados. Lembre-se: Ambrósio não tinha vocação para o sacerdócio, ele foi abandonado nas portas do mosteiro e tornou-se um monge por falta de outra opção.

Pobre Ambrósio!

Pintura de Cornelis Cornelisz Van para O Monge.

 

 

 

 

 

 

“Foi o trabalho mais recompensador que já tive até hoje.”

Maria Aparecida Mello Fontes, tradutora de O Monge, de Matthew Gregory Lewis, lançamento da Pedrazul de fim de ano, e de Os Filhos da Abadia, da autora irlandesa Regina Maria Roche, lançamento previsto para 2017, fala da sua experiência como tradutora, dos encantos da profissão e de sua paixão pela literatura.

“A tradução parece que é um trato que a gente faz com o autor, de dar continuidade ao trabalho realizado em outros tempos, levá-lo para outros povos e não deixá-lo morrer.”

maria-aparecida-mello-fontes-1

Como foi traduzir O Monge? E como está sendo traduzir Os Filhos da Abadia?

Tradutora: Eu já havia trabalhado com algumas traduções técnicas e publicitárias, mas O Monge foi minha primeira tradução literária. A primeira sensação foi a responsabilidade de fazer um trabalho de qualidade, respeitando o texto original, mas proporcionando uma leitura atual e prazerosa. A linguagem de época requer muita pesquisa e, também, muita imaginação. Mais de uma vez eu me vi viajando no tempo, visitando os lugares descritos no livro e sentindo as emoções que os personagens sentiam. Por alguns meses da minha vida eu testemunhei as aventuras de Ambrósio e me surpreendi com o desfecho dos acontecimentos. Foi o trabalho mais recompensador que já tive até hoje.

Sabemos que a tradução de Os Filhos da Abadia (Oscar e Amanda) ainda não está concluída, mas como há muita expectativa sobre a obra. Pode falar um pouco sobre ela?

Tradutora: Como disse, ainda estou bem no início, na fase de me apaixonar pelos personagens, portanto, ainda não tenho uma opinião formada sobre a tradução deste livro. Mas, para os apaixonados pela obra, ressalto que estou amando. Embora a obra também seja classificada como literatura gótica, ainda não vi muitos elementos que comprovem o estilo, a não ser a abadia em si e um casamento secreto realizado à meia-noite em uma velha capela que esconde algumas sepulturas. Aliás, esse assunto despertou uma questão: será melhor ler todo o livro antes de traduzi-lo, ou ir traduzindo e se surpreendendo com os fatos que vão surgindo à medida que avançamos o trabalho? Como a obra é muito extensa (600 páginas), decidi já iniciar a tradução. Embora o primeiro capítulo narre o retorno de Amanda ao lugar onde cresceu, a história viaja no tempo para um passado no qual Oscar e Amanda ainda não eram nascidos e eu estou muito ansiosa para conhecê-los melhor e caminhar com eles entre os encontros e desencontros até o final, feliz, espero. Além disso, a descrição detalhada dos cenários e das características dos personagens é realmente cativante. O livro também faz muitas referências a um antigo poeta e as notas de rodapé deverão ajudar o leitor a compreendê-las.

Teve dificuldade para encontrar o estilo dos autores?

Tradutora: Não, no caso de O Monge eu fiz muita pesquisa sobre as críticas que a obra recebeu, sobre as críticas que o autor recebeu, qual foi a sua inspiração para escrever o livro e, assim, desde o início eu já sabia como seria o trabalho. Já a linguagem de Os Filhos da Abadia é mais fácil e a tradução flui melhor, mas há muitas interrupções para pesquisa, como foi mencionado no tópico acima.

 Em sua opinião, é importante para o tradutor gostar do gênero literário da obra que traduz?

Tradutora: Sim, acho fundamental. Embora eu tenha muito mais familiaridade com o século seguinte, principalmente a partir da rainha Vitória, mesmo assim estou adorando a oportunidade para obter mais conhecimentos sobre o período anterior. Adoro história e a tradução de obras de séculos passados me ajuda a compreender melhor alguns fatos e pessoas.

Teve alguma surpresa com a história durante a tradução? O que lhe encantou neste trabalho?

Tradutora: Muitas surpresas, a literatura gótica foge um pouco da tradicional e a mocinha, por exemplo, nem sempre é salva no último segundo. O final é esperado, mas surpreendente.

 Sabemos que a leitura de um livro pode mudar para sempre uma pessoa, a tradução de uma obra também?

Tradutora: Com certeza. Por exemplo, com O Monge eu descobri que adoro a estética gótica e os diálogos finais da obra de Matthew Gregory Lewis mudaram a minha maneira de ver a vida, de entender a fé. Espero que acrescente algo aos leitores também.

 Quais dicas daria para quem quer ser tradutor?

Tradutora: Dominar os idiomas, tanto o da fonte quanto o de destino. Ler muito, ser curioso, não ter preguiça de fazer pesquisas. Querer saber como as casas eram iluminadas no século XVIII é só um exemplo do trabalho de um tradutor literário. Eu considero o trabalho mais artístico do que técnico e a cultura do tradutor é a base para o sucesso da tradução.

maria-aparecida-mello-fontes

Em sua opinião, qual a maior gratificação de um tradutor?

Tradutora: Ver a obra terminada, mesmo se não tivesse meu nome, eu ficaria feliz. Parece que é um trato que a gente faz com o autor, de dar continuidade ao trabalho realizado em outros tempos, de levá-lo para outros povos, de não deixá-lo morrer. Mas ter o meu nome impresso na obra, também me faz feliz. Torna-me imortal.

Visite o site www.pedrazuleditora.com.br e conheça as nossas publicações. Assista a entrevista no canal oficial da Pedrazul no YouTube.