Evelina – Frances Burney

Evelina

Evelina é um romance doce que contém personagens da pequena nobreza inglesa, Lordes e Ladies, e que foi escrito por uma autora que conviveu com eles. Frances Burney, ou Fanny Burney, frequentava o palácio na época da rainha Charlotte e atuou como guarda das vestes da monarca, portanto, ela mostra com propriedade como era àquela época, um belíssimo retrato da Inglaterra do século XVIII.

Um pouco de História antes da resenha!

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Os romances clássicos são aulas inteiras de História sobre um período, um povo e sua cultura. Evelina, além de uma obra encantadoramente atraente, mostra com clareza (de quem frequentou a corte inglesa e também conviveu com os pobres, pois o pai da autora era um músico), as três grandes categorias de status social da época. Na era Georgiana (em outras épocas também) não era o nível de renda que mais importava, mas a classificação social da pessoa. As fileiras superiores eram geralmente chamadas de pequena nobreza, famílias com gigantescas propriedades rurais das quais retiravam muito dinheiro, contando que não tivessem que trabalhar na terra. Uma profissão adequada à pequena nobreza (para os filhos não primogênitos, pois o primeiro filho homem herdava o título e as terras) era cargos no governo. O alto escalão do clero, os militares e os funcionários civis vinham da nobreza e eram chamados de ‘Sir’. Os herdeiros (primogênitos) eram os ‘pares do reino’: duques, marqueses, condes e viscondes. Eram estes os que se sentavam na Câmera dos Lordes por direito hereditário. Existiam, ainda, títulos por serviço à coroa. A maior honra concedida pelo Rei era um baronato, que também era um título hereditário e, abaixo deste, o cavaleiro. Todos os outros nobres eram intitulados de escudeiros ou simplesmente cavalheiro. Já no início do século XVIII, o título de cavalheiro era dado (informalmente) aos homens ricos de fora da pequena nobreza, principalmente comerciantes, para distingui-los do pobre comum.

O segundo lugar na categoria social seria “o tipo mediano”. E eram os comerciantes. Estas pessoas ganharam dinheiro trabalhando. Muitos eram mais ricos do que muitos na pequena nobreza, mas o seu estado era menor. No inverno a pequena nobreza e os ricos se reuniam em Londres. Frances Burney retratou isso muito bem em Evelina. Era a conhecida ‘alta temporada’: as socializações nos clubes, parques e moradias ao redor de Westminster; as óperas, o teatro, os grandes e pequenos bailes. O restante do ano era passado nas grandes propriedades rurais ou em algum balneário da moda, como Bath, onde as águas minerais eram consideradas restauradoras. Os filhos homens da pequena nobreza tipicamente estudavam em Oxford ou Cambridge depois de terem sido educados em casa. Como já mencionado, o mais velho do sexo masculino era o herdeiro da fortuna e do título. Os filhos mais jovens da pequena nobreza eram preparados para participar do clero (ser um pároco), ou um militar ou funcionário público. As filhas eram educadas para se casarem com homens elegíveis a partir da pequena nobreza, e, para muitas famílias era a esperança de elevarem suas fortunas. Filhas não herdavam nada, portanto, o casamento, além de ser uma aliança estratégica era a única forma de dignidade para não depender da caridade de um parente (era raro uma mulher ter sua própria renda). As profissões que atualmente têm status, como: advogados, médicos, naquela época, não tinham o status social de hoje. Advogados eram muitas vezes ridicularizados como predadores, enquanto os médicos (provavelmente com razão) eram frequentemente denunciados como charlatões. Em 1745 foi feita uma distinção oficial entre médicos e barbeiros. As classes mais baixas também tinham divisões. No topo desta categoria estavam os artesãos que fabricavam sapatos, roupas, móveis, navios, metais e outros bens em suas oficinas, juntamente com seus oficiais e aprendizes. Tudo isso está retratado em Evelina, de Burney. Depois vinham os pescadores dos navios mercantes, mas a maior parta da população, contudo, na casa de centenas de milhares, estava no campo, no trabalho agrícola e no serviço doméstico. O primeiro era essencialmente uma ocupação de macho, enquanto o segundo da fêmea. Havia ainda uma subclasse não trabalhadora: os indigentes e vagabundos. No século XVIII a pobreza era generalizada, especialmente quando as colheitas eram fracas e os preços dos alimentos subiam.  Burney que nasceu em 1752 e viveu até 1840, frequentou a corte, viajou e viveu no estrangeiro. Portanto, tinha conhecimento de sobra para nos presentear com um clássico com enorme peso histórico. Não é acaso que Evelina é leitura obrigatória das escolas e universidades londrinas. Virginia Woolf descreveu Frances Burney como a mãe da literatura inglesa.

AGORA A RESENHA!

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A edição da Pedrazul é ilustrada originalmente por Hugh Thomson.

Evelina é uma mocinha de pouco mais de 17 anos, órfã de mãe e não reconhecida pelo pai, que vive situações constrangedoras em Londres, onde é levada a confrontar seus medos, seu passado, e a conhecer o amor. Criada no campo, em Berry Hill, em Dorsetshire, no interior da Inglaterra, num doce e forçado exílio, a única companhia de Evelina era a do idoso e bondoso Mr. Villars, um pároco que a tem como filha.

Este clérigo, contudo, mantinha boas relações com Lady Howard, de Kent. Através dessa amizade, Evelina foi convidada a passar uns meses na mansão de Howard Grove e depois acompanhar a filha e a neta de Lady Howard, Mrs. e Miss Mirvan, a Londres, por um período de três meses: a famosa temporada londrina! Depois de certa hesitação, Mr. Villars deu permissão para a viagem, embora preocupado, pois Evelina era ingênua e insegura.

Uma moça interiorana, que conhece pela primeira vez a vida em sociedade, é de supor que se cometa alguns equívocos em relação à etiqueta. E foi o que ocorreu: Frances Burney usa seu humor, muito como Jane Austen, para criticar uma sociedade orientada pelo masculino, na qual as mulheres eram meramente objetos de prazer ou peões do destino. Em um baile, em Londres, Evelina não sabia que uma dama não podia se negar a dançar com um cavalheiro se este a convidasse. A não ser que já estivesse comprometida. O primeiro “janota” que veio tirá-la para dançar recebeu um “não”. Oh! Como isso o afetou! Em Londres, Evelina teve que aprender a conviver em harmonia com os vários tipos de pessoas que cruzaram o seu caminho e, especialmente, a lidar com comportamentos vulgares, violentos e até abusivos, como Sir Clement Willoughby, um nobre que ficou obsessivo ela beleza dela e que lhe causou muitos problemas.

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Sir Clement tenta violentar Evelina!

Porém, no mesmo baile de estreia, Evelina viu Lord Orville, um cavalheiro que parecia ter todos os predicados do termo. Ele a convidou para dançar; ela hesitou e disse que só havia dançado na escola, e com meninas. Lord Orville, educadamente, disse que era fácil e que lhe ensinaria. Ela foi, ficou toda envergonhada e não abriu a boca, as palavras lhe sumiram e ela foi taxada de “uma pobre garota do interior”, mais ou menos sem graça, sem expressão, apenas bonita por fora. Segundo pesquisadores, Jane Austen se inspirou em Lord Orville para criar Mr. Darcy. O trecho inicial quando Evelina e Lord Orville se conheceram, lembra totalmente o primeiro encontro entre Elizabeth e Mr. Darcy no baile em Meryton, ocasião em que Elizabeth ouve Mr. Darcy descrevê-la como “tolerável, mas não suficientemente bonita para me tentar”. Da mesma forma, uma amiga de Evelina ouve Lord Orville se referindo a ela, como: “Uma garota de aparência modesta, fraca, filha de um pároco do interior”. Mas à frente, num encontro entre Sir Clement e Lord Orville, o cavalheiro se refere a ela:  “O Senhor ficou feliz, meu Lord”, disse Sir Clement, “sobre a nossa primeira conversa concernindo àquela jovem dama […], o senhor disse que ela era uma pobre, fraca e ignorante garota e eu tinha razão para crer que o senhor possuísse uma opinião mais desdenhosa dela”.

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Lord Orville é lindo demais!

Como em Orgulho e Preconceito, de Austen, Evelina agiu como Elizabeth Bennet (na verdade foi o contrário, pois Evelina foi publicado em 1778 e Orgulho e Preconceito, em 1813), se sentiu envergonhada de seu estado obscuro e de suas relações vulgares.

Evelina é um romance extenso, lindo, cheio de reviravoltas, surpresas incríveis e, certamente, influenciou Jane Austen na criação de vários personagens posteriormente, como Mr. Darcy, como já mencionamos. Catherine Morland, de A Abadia de Northanger, também tem muito de Evelina. Lady Louisa, a irmã de Lord Orville, é igualzinha a irmã de Mr. Bingley, e muitos outros.

Concluindo: se você gostou de Orgulho e Preconceito, de Austen, vai amar Evelina, de Burney!

SOBRE A CAPA DA EDIÇÃO DA PEDRAZUL!

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A Pedrazul nunca economiza em marcadores!

Frances Burney era amiga do artista John Hoppner (1758-1810) e, embora a primeira edição de Evelina tenha sido lançada de forma anônima, em  1780, Hoppner sabia de quem era a autoria da obra pela qual se apaixonou. Portanto, saiu à procura de uma desconhecida que fosse tão bela quanto à sua heroína, encontrando-a fez a pintura que é a capa da edição da Pedrazul, chamada “Retrato de uma Senhora como Evelina”.

SOBRE A AUTORA

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Frances Burney, ou Fanny Burney, pintada por Edward Francis Burney.

Frances ‘Fanny’ Burney (1752-1840) foi uma das romancistas inglesas mais populares do final do século XVIII. Precursora de romances que retratam a simples vida doméstica, Burney teve forte influência sobre Jane Austen, Mary Edgeworth, autora de Belinda; e William Thackeray. Seu talento para contar histórias, sua capacidade, sua abundância de personagens, somente foram superados por Charles Dickens. Ela também foi uma importante diarista e cronista dos costumes ingleses sobre moral e sociedade. Filha de Charles Burney, um ilustre historiador da música, a autora se tornou popular com a publicação de ‘Evelina’. Embora ela tivesse começado a compor a obra em 1767, somente a publicou em 1778, de forma anônima. Burney também publicou outros romances: ‘Cecilia’ ou ‘Memórias de Uma Herdeira’, em 1782, e ‘Camilla’ ou ‘Um Retrato da Juventude’, em 1796, ambos citados por Jane Austen em ‘A Abadia de Northanger’. Em ‘Evelina’, Burney expõe tanto a vaidade como a afetação da alta classe londrina, como também a vulgaridade e a falta de sentimento. É um romance que mostra a inteligência da autora, o conhecimento da sociedade inglesa e sua versatilidade técnica. Burney também conviveu na corte inglesa e no período de 1787 a 1791 atuou como guarda das vestes da rainha Charlotte. Em 1793, ela se casou com o general d’Arblay, um refugiado francês, com quem viveu na França de 1802 a 1812.

A edição de Evelina é ilustrada originalmente por Hugh Thomson. Tradução de Gabriela Alcoforado. A mesma tradutora de Margaret Hale, de Elizabeth Gaskell.
Texto de Chirlei Wandekoken.

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A imagem principal é do blog Nuvem Literária