Tradutora de Uma Noite Escura relata a sua experiência!

Taynée Mendes, tradutora de Uma Noite Escura e Minha Lady Ludlow, ambos da autora Elizabeth Gaskell, relata a sua experiência na tradução da mestra dos romances de época que, aliás, recebeu de Charles Dickens a carinhosa alcunha de “querida Scheherazade”, devido a sua habilidade em contar histórias. “Se você gosta de autores ingleses clássicos, não pode deixar de conhecer as obras de Gaskell, cujo nome é muito famoso e reverenciado na Inglaterra. Numa oportunidade, visite à Westminister Abbey, em Londres, pois há um espaço em homenagem aos escritores ingleses, o Poet’s corner. Lá está Elizabeth Gaskell ao lado de Jane Austen e Charles Dickens”, relata Taynée. Os livros da autora falam sobre as mudanças sociais do século 19, principalmente, as consequências da Revolução Industrial e o papel da mulher em uma sociedade altamente aristocrática. Se você gosta de séries britânicas como Downton Abbey, também vai amar Uma Noite Escura. Na série e nos livros de Gaskell, a chegada da modernidade é um grande desafio para os ingleses arraigados em suas posições sociais e mentalidades do passado.

A tradutora!

Formada em Produção Editorial e Jornalismo, Taynée sempre amou ler e escrever. Iniciou sua carreira trabalhando em editoras onde teve seu primeiro contato com tradução. Também trabalhou no cotejo de obras originais com suas traduções em português, dessa forma, viu de perto as soluções criativas dadas pelos tradutores ao traduzir trechos particularmente complexos, expressões muitas vezes inexistentes em nosso idioma. “Fiquei fascinada por este trabalho e procurei me especializar ainda mais. Percebi que o bom tradutor deve ser, antes de mais nada, um bom leitor. Uma Noite Escura é especial por ser minha primeira tradução de ficção, literatura pura e simples. A meu ver, a principal dificuldade foi adaptar palavras e títulos típicos da monarquia inglesa, algo tão natural para o leitor inglês familiarizado com seu passado histórico e, ao mesmo tempo, tão distante para o leitor brasileiro, que viveu uma monarquia tupiniquim bastante peculiar.”

Peculiaridades de Gaskell!

“Ao ler o primeiro capítulo, nota-se o tom irônico da autora. Percebe-se em sua escrita que, ao abusar dos adjetivos nas falas de alguns personagens, Gaskell pretende criticar o excesso de polidez, apenas aparente, da aristocracia inglesa e, principalmente, da pequena nobreza do condado de Hamley. As intervenções do narrador, geralmente marcadas em primeira pessoa, são utilizadas para dar uma explicação adicional ou para elucidar uma característica que pudesse passar despercebida. A capacidade descritiva da autora também é algo fenomenal. Lembro que as cenas mais dramáticas de Uma Noite Escura e também de Minha Lady Ludlow são descritas de uma forma fria e direta, o que contribui para a sensação de horror ali presente.”

Gosto pelo gênero!

“Acredito que um bom tradutor pode traduzir qualquer coisa, porém há áreas específicas em que o profissional pode se especializar. No caso de tradução literária, acredito que o tradutor precisa ler muitos romances e se familiarizar com os termos próprios daquela área, além de ter uma certa sensibilidade para compreender o estilo do autor. Essa dimensão, dispensável em outros tipos de tradução, é impreterível na tradução literária. E se o tradutor já gosta do gênero, a tradução será ainda mais prazerosa.”

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Surpresa e encantamento!

“Foram várias surpresas durante o processo de tradução. A própria trama de Uma Noite Escura é surpreendente. Quando os personagens são muito bem construídos, você chega a se identificar com eles, uma empatia acontece. Só que quando o personagem sofre, você sofre junto! Lembro que passei dias angustiada com a situação vivida por Ellinor. Gaskell realmente surpreende seus leitores, porque nunca acontece o que se espera que vá acontecer. Nesse sentido, Uma Noite Escura se aproxima dos romances policiais, na medida em que a cada capítulo prende muito a atenção do leitor. Talvez o fato de ter sido originalmente publicado no formato de folhetim possa ter contribuído para isso. Como tradutora e leitora, gostei muito desse suspense!”

Para quem pretende ser um tradutor!

“Leia muito! Principalmente se você quer traduzir literatura. Mais que saber a língua da qual se quer traduzir, é preciso saber bem o português. Por isso, escrever também é essencial. Ter certa prática em jornalismo me ajudou sempre a pensar no leitor, a escrever textos claros e objetivos. Por isso, falar outra língua de forma fluente não faz de ninguém um bom tradutor. É preciso entender as nuances da língua estrangeira e saber expressar esse sentido em sua língua materna. Fico com o conselho de Umberto Eco, em Quase a mesma coisa, mais que reproduzir palavras em outra língua, é preciso buscar o mesmo efeito do original na língua de destino.”

Gratificação!

“Acredito que um livro pode mudar vidas e acho gratificante poder contribuir para que mais pessoas tenham acesso àquele texto que, por conta da barreira do idioma, não teriam.”

“Foi o trabalho mais recompensador que já tive até hoje.”

Maria Aparecida Mello Fontes, tradutora de O Monge, de Matthew Gregory Lewis, lançamento da Pedrazul de fim de ano, e de Os Filhos da Abadia, da autora irlandesa Regina Maria Roche, lançamento previsto para 2017, fala da sua experiência como tradutora, dos encantos da profissão e de sua paixão pela literatura.

“A tradução parece que é um trato que a gente faz com o autor, de dar continuidade ao trabalho realizado em outros tempos, levá-lo para outros povos e não deixá-lo morrer.”

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Como foi traduzir O Monge? E como está sendo traduzir Os Filhos da Abadia?

Tradutora: Eu já havia trabalhado com algumas traduções técnicas e publicitárias, mas O Monge foi minha primeira tradução literária. A primeira sensação foi a responsabilidade de fazer um trabalho de qualidade, respeitando o texto original, mas proporcionando uma leitura atual e prazerosa. A linguagem de época requer muita pesquisa e, também, muita imaginação. Mais de uma vez eu me vi viajando no tempo, visitando os lugares descritos no livro e sentindo as emoções que os personagens sentiam. Por alguns meses da minha vida eu testemunhei as aventuras de Ambrósio e me surpreendi com o desfecho dos acontecimentos. Foi o trabalho mais recompensador que já tive até hoje.

Sabemos que a tradução de Os Filhos da Abadia (Oscar e Amanda) ainda não está concluída, mas como há muita expectativa sobre a obra. Pode falar um pouco sobre ela?

Tradutora: Como disse, ainda estou bem no início, na fase de me apaixonar pelos personagens, portanto, ainda não tenho uma opinião formada sobre a tradução deste livro. Mas, para os apaixonados pela obra, ressalto que estou amando. Embora a obra também seja classificada como literatura gótica, ainda não vi muitos elementos que comprovem o estilo, a não ser a abadia em si e um casamento secreto realizado à meia-noite em uma velha capela que esconde algumas sepulturas. Aliás, esse assunto despertou uma questão: será melhor ler todo o livro antes de traduzi-lo, ou ir traduzindo e se surpreendendo com os fatos que vão surgindo à medida que avançamos o trabalho? Como a obra é muito extensa (600 páginas), decidi já iniciar a tradução. Embora o primeiro capítulo narre o retorno de Amanda ao lugar onde cresceu, a história viaja no tempo para um passado no qual Oscar e Amanda ainda não eram nascidos e eu estou muito ansiosa para conhecê-los melhor e caminhar com eles entre os encontros e desencontros até o final, feliz, espero. Além disso, a descrição detalhada dos cenários e das características dos personagens é realmente cativante. O livro também faz muitas referências a um antigo poeta e as notas de rodapé deverão ajudar o leitor a compreendê-las.

Teve dificuldade para encontrar o estilo dos autores?

Tradutora: Não, no caso de O Monge eu fiz muita pesquisa sobre as críticas que a obra recebeu, sobre as críticas que o autor recebeu, qual foi a sua inspiração para escrever o livro e, assim, desde o início eu já sabia como seria o trabalho. Já a linguagem de Os Filhos da Abadia é mais fácil e a tradução flui melhor, mas há muitas interrupções para pesquisa, como foi mencionado no tópico acima.

 Em sua opinião, é importante para o tradutor gostar do gênero literário da obra que traduz?

Tradutora: Sim, acho fundamental. Embora eu tenha muito mais familiaridade com o século seguinte, principalmente a partir da rainha Vitória, mesmo assim estou adorando a oportunidade para obter mais conhecimentos sobre o período anterior. Adoro história e a tradução de obras de séculos passados me ajuda a compreender melhor alguns fatos e pessoas.

Teve alguma surpresa com a história durante a tradução? O que lhe encantou neste trabalho?

Tradutora: Muitas surpresas, a literatura gótica foge um pouco da tradicional e a mocinha, por exemplo, nem sempre é salva no último segundo. O final é esperado, mas surpreendente.

 Sabemos que a leitura de um livro pode mudar para sempre uma pessoa, a tradução de uma obra também?

Tradutora: Com certeza. Por exemplo, com O Monge eu descobri que adoro a estética gótica e os diálogos finais da obra de Matthew Gregory Lewis mudaram a minha maneira de ver a vida, de entender a fé. Espero que acrescente algo aos leitores também.

 Quais dicas daria para quem quer ser tradutor?

Tradutora: Dominar os idiomas, tanto o da fonte quanto o de destino. Ler muito, ser curioso, não ter preguiça de fazer pesquisas. Querer saber como as casas eram iluminadas no século XVIII é só um exemplo do trabalho de um tradutor literário. Eu considero o trabalho mais artístico do que técnico e a cultura do tradutor é a base para o sucesso da tradução.

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Em sua opinião, qual a maior gratificação de um tradutor?

Tradutora: Ver a obra terminada, mesmo se não tivesse meu nome, eu ficaria feliz. Parece que é um trato que a gente faz com o autor, de dar continuidade ao trabalho realizado em outros tempos, de levá-lo para outros povos, de não deixá-lo morrer. Mas ter o meu nome impresso na obra, também me faz feliz. Torna-me imortal.

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Silvia Rezende, a tradutora de Cranford, de Elizabeth Gaskell, e Lady Anna, de Anthony Trollope!

Tradutora há mais de dez anos, Silvia já perdeu as contas de quantas obras já passaram por suas habilidosas mãos. Para a Pedrazul, ela traduziu Cranford, de Gaskel, e está na fase final de Lady Anna, de Trollope.

“Os livros são como filhos; alguns saem mais bonitos, outros nem tanto, mas todos levam todo o meu empenho e envolvimento com o trabalho que exerço com tanto carinho e satisfação.”

Blog Pedrazul: Como deu início à carreira de tradutora?

Silvia: Iniciei a carreira de tradução meio que por acaso. Eu tinha acabado de me mudar dos Estados Unidos de volta para o Brasil, junto de meu marido e meus dois filhos, sentindo que precisava fazer algo mais além de me dedicar somente à família; sentindo que precisava me realizar profissionalmente também. Após avaliar várias possibilidades, inclusive retomar o curso de psicologia que eu havia trancado no segundo ano, decidi que iria fazer algo totalmente novo, aproveitando o novo idioma conquistado, e prestei vestibular para o curso de Letras, Tradutor/Intérprete, na extinta UNIBERO. Foram quatro anos de muito estudo, tanto do inglês quanto do português. Mesmo antes de formada eu já tinha em mente que queria trabalhar com tradução editorial, e com este objetivo, saí à luta com um diploma em mão e nenhuma experiência. Não foi fácil conseguir que a primeira porta se abrisse, mas depois de muita insistência e muitos nãos, finalmente consegui uma oportunidade. Mas depois de algum tempo, minha sede de saber e curiosidade, traço que acompanha todo tradutor, não tinha cessado e resolvi retomar meus estudos; e desta vez busquei uma pós-graduação em Crítica Literária, pela PUC de São Paulo. Foi uma delícia circular pelo meio acadêmico novamente, tomar contato com novos autores, novas teorias e conceitos. Ainda tenho planos e um projeto para um mestrado. Quem sabe…

Blog Pedrazul: Quais gêneros você já traduziu?

Silvia: Ao longo da minha carreira já traduzi obras de vários gêneros literários, como por exemplo: livros de receitas, infantis, muita coisa de infanto-juvenis, livros técnicos, e principalmente romances de época, futuristas e contemporâneos.

Blog Pedrazul: Para você é importante traduzir o gênero que gosta?

Silvia: Não creio que seja essencial o tradutor gostar do gênero que traduz, mas sem dúvida isto torna o ato mais prazeroso.

Blog Pedrazul: Quais as maiores dificuldades encontradas por um tradutor?

Silvia: Uma das maiores dificuldades é pegar o jeito do autor, o tom e o estilo. Às vezes isso acontece logo no primeiro capítulo, em outros demora um pouco mais. E o grande desafio nos romances de época é a escolha lexical dos autores, pois muitas vezes nos deparamos com palavras e estruturas que caíram em desuso.

Blog Pedrazul: Quais as maiores alegrias encontradas por um tradutor?

Silvia: O envolvimento com a história, sem dúvida! Normalmente me envolvo com a obra, e não foram poucas as vezes que chorei enquanto traduzia algum trecho triste ou ri muito nos engraçados. O ato de traduzir sempre foi muito prazeroso, pois através dele tenho contato com outras culturas, personagens, histórias e estilos de escrita, além de possibilitar que outras pessoas possam ter acesso a obras originalmente publicadas em outro idioma. Confesso que acabo me apegando ao livro que estou traduzindo e sofro para deixá-lo partir. Leio e releio, melhoro alguma coisa, e sempre tenho a impressão de que se lesse mais uma vez ainda iria encontrar algo mais que poderia ser aprimorado. Os livros são como filhos; alguns saem mais bonitos, outros nem tanto, mas todos levam todo o meu empenho e envolvimento com o trabalho que exerço com tanto carinho e satisfação.

 "Estudem sempre, tanto o idioma de partida quanto o de chegada, principalmente, pois é essencial o domínio do idioma para o qual se está traduzindo. Leia muito e de tudo para ampliar o vocabulário, estude sempre, vá ao cinema e ao teatro, viaje muito, se possível."
“Estudem sempre, tanto o idioma de partida quanto o de chegada, principalmente, pois é essencial o domínio do idioma para o qual se está traduzindo. Leia muito e de tudo para ampliar o vocabulário, estude sempre, vá ao cinema e ao teatro, viaje muito, se possível.”

Blog Pedrazul: Conte-nos como foi o processo de tradução de Cranford?

Silvia: Adorei quando soube que iria traduzir Cranford para Pedrazul, pois apesar de ainda não ter lido o livro e eu já tinha assistindo alguns episódios da fantástica série televisiva inspirada nesta obra e produzida pela BBC de Londres. O livro superou todas as minhas expectativas. Ao longo do trabalho fui me afeiçoando aos personagens, rindo com as suas aventuras e sofrendo com as desventuras. Gaskel tem um senso de humor e crítico incríveis, que lembra muito o de Jane Austen. Ela, assim como Austen, que foi sua antecessora, escrevia numa época em que ser escritor não era coisa para mulheres, que nem tinham direito a herança. Porém de uma forma bem-humorada e que soa natural, ela cria a fictícia Cranford, cidade no interior da Inglaterra, habitada por solteironas e viúvas, que dominam a cidade tanto no aspecto financeiro, pois elas são donas das melhores casas, quanto no social, pois são elas que ditam as regras de conduta da cidadezinha. Trata-se de uma história cativante, comovente, engraçada e sensível.

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Blog Pedrazul: Há uma expectativa imensa em torno de Lady Anna, pois Anthony Trollope é ainda quase desconhecido no Brasil. Conte-nos um pouco dessa experiência.

Silvia: Lady Anna é o segundo livro que estou traduzindo para a Pedrazul e tive o prazer de poder escolhê-lo entre outros tantos. A editora me mostrou briefings de obras e me deu a oportunidade da escolha. Isso é um diferencial na Pedrazul! Nesta obra, o estilo do autor deu um pouco mais de trabalho e levei um tempo para me acostumar com seus parágrafos extensos e palavras que caíram em desuso. A trama é forte, os personagens mostram caráter e personalidade e o autor consegue manter o clima de suspense até o final. Mas Lady Anna, além de ser uma história de amor, tem também uma forte vertente sociológica. Trollope questiona as diferenças entre a classe nobre inglesa e a classe trabalhadora e os preconceitos de ambos os lados. É uma narrativa intensa, que apesar de ter sido escrita em 1871 e publicada pela primeira vez no formato livro em 1874, ainda é atual, pois aborda temas universais como o amor e as lutas de classes. Tenho certeza de que os leitores vão amar tanto quanto eu esta intensa história de amor.

Blog Pedrazul: Qual conselho daria para quem deseja iniciar carreira como tradutor?

Silvia: Estudem sempre, tanto o idioma de partida quanto o de chegada, principalmente, pois é essencial o domínio do idioma para o qual se está traduzindo. Leia muito e de tudo para ampliar o vocabulário, estude sempre, vá ao cinema e ao teatro, viaje muito, se possível. Nunca perca a curiosidade. Desconfie sempre das palavras, elas são traiçoeiras e adoram pregar peças. Nunca desista no primeiro não que escutar, insista, persista, e traduza para treinar e adquirir prática. Mas acima de tudo, trabalhe com amor.

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Talvez se interesse por mais obras Elizabeth Gaskell: Esposas e Filhas, O Chalé de Morland, Margaret Hale (Norte e Sul)
Quem se interessa por Margaret Hale (Norte e Sul), também se interessa por Um Coração Para Milton, de Trudy Brasure.
Sobre Anthony Trollope, talvez se interesse por A Senhorita Mackenzie
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O tradutor é o artista na retaguarda do autor!

Andrea Carvalho, tradutora de O Chalé de Moorland e Lizzie Leigh, de Elizabeth Gaskell, publicados em um único volume, e O Diário de Mr. Darcy, de Amanda Grange, e, em andamento, para lançamento no início de 2017, A Pequena Dorrit, de Charles Dickens, fala-nos do prazer indescritível de concluir uma tradução e das especificidades de um bom tradutor. “O tradutor é um coautor da obra, ele precisa ter uma veia artística”. A entrevista completa você confere aqui e, em vídeo, no canal Pedrazul no Youtube.

“Traduzir a Pequena Dorrit está sendo um grande prazer, pois Charles Dickens traz o que mais me seduz na literatura, que é a linguagem enquanto arte.”

Blog Pedrazul: O que o profissional tem que ter para ser um bom tradutor?

Andrea: A tradução é um trabalho bastante minucioso e o tradutor precisa realmente gostar do que faz, além de todo o cuidado com a linguagem, respeitando a textura do original, é necessário todo um trabalho de pesquisa em torno do contexto da obra e das referências trazidas pelo autor. A pessoa que trabalha com tradução literária precisa gostar realmente de literatura e precisa ter prazer em trabalhar com a linguagem; caso contrário, é impossível conseguir um bom resultado. O tradutor de uma obra é um coautor, ele precisa ter uma veia artística. Se você gosta de literatura e traduz uma obra com carinho e dedicação, o prazer quando conclui o trabalho é indescritível.

Blog Pedrazul: E como foi traduzir as obras de Elizabeth Gaskell?

Andrea: O Chalé de Moorland e o Lizzie Leigh são dois livros carregados de emoção, são obras que quando você lê fica óbvio que a autora é uma mulher. Chorei muito durante a tradução, as histórias tocam o leitor de uma maneira muito especial. Gaskell tem uma delicadeza na linguagem que eu precisei tomar muito cuidado para manter. E ela faz citações como, por exemplo, de poemas de autores clássicos como Shakespeare e outros é um trabalho à parte traduzi-los, além de textos similares que muitas vezes aparecem no meio da obra. Mas é uma autora espetacular e foi uma honra para mim traduzir duas de suas obras-primas.

Capa o chalé de moorland

Blog Pedrazul: Fale-nos do processo de tradução de O Diário de Mr. Darcy, de Amanda Grange?

Andrea: O Diário de Mr. Darcy traz a versão subjetiva de um dos personagens centrais do romance clássico Orgulho e Preconceito, de Jane Austen. Assim como o clássico, a obra de Amanda Grange tem todo o charme típico dos romances da era georgiana. Foi uma tradução bastante tranquila e agradável, pois você se envolve com a história, fica querendo saber o que vai acontecer em seguida, torce pelos personagens, portanto, foi um trabalho realmente muito agradável e o livro é maravilhoso. Com certeza todo fã de Austen vai amar ler a continuação de Amanda Grange.

Capa O Diário de Mr. Darcy

Blog Pedrazul: Você aceitou um desafio e tanto, que foi traduzir Charles Dickens, conhecido por suas frases longas e estilo único. Como está a tradução de A Pequena Dorrit?

Andrea: Dickens era sem dúvida um gênio! A Pequena Dorrit é de longe o trabalho mais difícil da minha carreira como tradutora. Charles Dickens era um gênio da literatura, extremamente inteligente, crítico, e de uma sensibilidade humana e artística assustadora. A maior dificuldade desse trabalho não é apenas lidar com o vocabulário e as estruturas de complexidade absurda, mas é também respeitar o jogo poético da linguagem, sem mencionar as inúmeras referências. Traduzir A Pequena Dorrit está sendo um grande prazer, pois Charles Dickens traz o que mais me seduz na literatura, que é a linguagem enquanto arte.

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“A pessoa que trabalha com tradução literária precisa gostar realmente de literatura!”

 

 

 

 

Ellen Bussaglia, a tradutora de Esposas e Filhas, de Elizabeth Gaskell e Longe Deste Insensato Mundo, de Thomas Hardy

Ellen Bussaglia, a tradutora de Esposas e Filhas, de Elizabeth Gaskell e Longe Deste Insensato Mundo, de Thomas Hardy, e A Pobre Srta. Finch, de Wilkie Collins, em andamento, fala dos prazeres e das dificuldades da vida de um tradutor literário.

Blog Pedrazul: Conte-nos a sua experiência com a tradução. Como foi traduzir uma obra de Elizabeth Gaskell e de Thomas Hardy?

Ellen: Nunca havia trabalhado com literatura de época, e traduzir Esposas e Filhas foi um grande desafio para mim. Além de a linguagem ser um pouco diferente, era necessário pesquisar os fatos que são mencionados na história, o que levou um pouco de tempo, mas foi uma experiência muito enriquecedora. O segundo livro, Longe deste Insensato Mundo, como eu já estava mais habituada à linguagem vitoriana, já foi mais tranquilo. Posso dizer que é um trabalho difícil, mas muito prazeroso!

Blog Pedrazul: Teve dificuldade em encontrar o tom do autor?
Ellen: Não muita. Tenho mais dificuldade na escolha das palavras adequadas à época em que a história se passa.

Blog Pedrazul: Em sua opinião é importante o tradutor gostar do gênero literário da obra a qual traduz?
Ellen: Sim, sem dúvida, a afinidade é uma grande ajuda. Sempre tive medo de traduzir gêneros que não me agradassem. Quando gostamos do gênero, temos maior familiaridade com os temas e sabemos onde procurar aquilo que não conhecemos.

Blog Pedrazul: Teve alguma surpresa com a história durante a tradução? O que lhe encantou na tradução?
Ellen: Chorei bastante quando alguns personagens morreram e senti raiva de algumas mocinhas!

Blog Pedrazul: Qual conselho daria para aquela pessoa que sonha ser um tradutor?
Ellen: Estudar muito o idioma que deseja traduzir; estudar a língua Portuguesa e as técnicas de tradução literária. É um trabalho que exige estudo e dedicação, mas recompensador.

Blog Pedrazul: Em sua opinião, qual a maior gratificação de um tradutor?
Ellen: Ver seu nome nos créditos da tradução da obra. Sabemos que as melhores traduções são aquelas em que o tradutor é invisível, mas o reconhecimento é muito importante para mim (e a forma como a Pedrazul faz isso é realmente diferente das outras editoras). Tenho muito orgulho do meu trabalho e de traduzir obras consagradas da literatura inglesa. Ter a oportunidade de traduzir pela primeira vez estas obras para o português é um aprendizado muito grande e que me deixa muito feliz pelo que faço.

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Ellen Bussaglia, ao lado do busto do escritor Ernest Hemingway, em Key West, Na Flórida: paixão por literatura!

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Entrevista com pesquisador Eric Ruijssenaars sobre as Irmãs Brontë

Irmãs Bronte

Charlotte Bronte

VILLETTE É A OBRA AUTOBIOGRÁFICA DE CHARLOTTE BRONTË”

O autor e pesquisador europeu Eric Ruijssenaars, 50 anos, que há mais de 25 anos ‘investiga’ a vida das irmãs Brontës, nos conta, em entrevista exclusiva, alguns segredos sobre a irmã mais velha das Brontës, Charlotte, e fala de sua tórrida paixão proibida pelo professor de Bruxelas, que a inspirou a criar Mr. Rochester, de Jane Eyre, e Paul Emanuel, de Villette. Ele afirma que Villette é uma obra totalmente autobiográfica e que o livro foi um ponto final no drama do amor não correspondido. “Em Villette a personagem Lucy Snowe, desesperada, entra numa igreja e se confessa com o padre Silas. Essa confissão é autobiográfica. O passeio que ela fez com Monsieur Paul Emanuel também foi real e a paixão de Lucy por ele, lógico, foi a paixão dela por Monsieur Constantin Heger, além de centenas de outros fatos”, disse Eric.

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Eric Ruijssenaars.

Ruijssenaars é autor de Charlotte Brontë’s Promised Land  e The Pensionnat Revisited. As descobertas de suas pesquisas e a polêmica relação entre a Charlotte Brontë e Monsieur Heger, um homem casado que foi seu professor durante a estadia dela em Bruxelas, estão descritas aqui:

Eric vive em Leiden, Holanda, uma cidadezinha magnífica que parece pertencer ao século XVII. É como Amsterdam, mas consideravelmente menor. Ele é acadêmico sênior do New Netherland Research Center, em Albany, Estado de Nova Iorque, fundador da Dutch Archives, especializada em pesquisas históricas, situada também em Leiden, e co-fundador do The Brussels Brontë Group, em 2005. Embora expert em Países Baixos e Companhia das Índias Ocidentais, história holandesa do século XVII, em geral, ele, há mais de 25 anos é um estudioso das irmãs Brontës.

Para pesquisar sobre elas, o autor viveu um período em Bruxelas, mergulhado na principal fonte de documentos arquivísticos sobre elas naquele período, 1842-1843, que, segundo ele, são os Arquivos de Bruxelles. Ruijssenaars destaca ainda os livros e os jornais antigos das Bibliotecas Reais, em Bruxelas e em Haia, e a Biblioteca da Universidade de Leiden, Holanda, como ricas fontes de pesquisa sobre o assunto. Contudo, o pesquisador, que também é grande fã das Brontës, não ficou somente na Bélgica e na Holanda, mas vagou pelo Brontë Parsonage Museum por várias vezes, em Haworth, percorreu por Thornton, Bradford, em Yorkshire; escrutou tudo sobre elas nos museus British Museum, Ghent Museum of Fine Arts e outros; viajou para os Estados Unidos atrás de informações, pois muitos americanos tinham visitado o pensionato Heger antes de ele ser demolido.

Portanto, se alguém pode falar com preciosidade sobre o período em que Charlotte e Emily viveram em Bruxelas, Ruijssenaars é uma dessas pessoas. Tudo o que o leitor queria saber sobre Charlotte Brontë e não tinha para quem perguntar, nós perguntamos e Ruijssenaars respondeu. Por que Ruijssenaars foi tão solícito conosco, não sabemos, talvez pelo fato de ele já ter feito pesquisa sobre os holandeses no Brasil (bendito sobrenome holandês!), em Pernambuco, uma colônia que, segundo ele, durou apenas cerca de 25 anos.

Como começou a se interessar pelas Brontës ao ponto de escrever dois livros sobre elas?

O meu interesse pelas Brontës em Bruxelas começou há 25 anos como uma tentativa de impressionar uma namorada por quem eu tinha caído de amor. Naquela época, ela era uma das poucas pessoas amantes de Villette, pois não havia, por parte dos fãs das Brontës, quase nenhum interesse por Villette e pelo tempo que as irmãs Brontës viveram em Bruxelas, ao contrário de agora. Bem, li o livro e me apaixonei pela personagem Lucy Snowe. Achei que a Bruxelas das Brontës fora ainda pouco pesquisada, então eu decidi fazê-lo eu mesmo. 

Você me disse que essa parte da vida das Brontës tinha sido negligenciada. Por quê? 

Eu sentia falta de um trabalho investigativo detalhado da vida das Brontës em Bruxelas, pois faltavam informações sobre esse período, sobre o que Charlotte e Emily fizeram por lá, isto é, o que sabíamos era muito fragmentado. Fui em busca de respostas e descobri os lugares nos arredores de Bruxelas, nos quais Charlotte se inspirou para escrever ‘Villette’ e ‘O Professor’. Também fiz um levantamento da vida cultural na cidade no período de 1842-1843, nos quais Charlotte também se inspirou em vários trechos da obra, incluindo a identificação das pinturas mencionadas em Villette, além, é lógico, de tudo que envolveu Monsieur Constantin Heger. Tudo isso revelou que Villette, de fato, é uma obra totalmente autobiográfica. 

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A família Heger, por Ange Francois.

Em Charlotte Brontë’s Promised Land e The Pensionnat Revisited você mostra a Bruxelas de Villette e o Pensionnat Heger, respectivamente, onde Charlotte encontrou sua paixão. Fale um pouco sobre suas obras.

O pensionnat Heger ficava na Rue d’ Isabelle. Infelizmente foi demolido, em 1910. Sobre meus livros, o primeiro foi lançado pela a Sociedade Brontë da Europa,  em 2000, e o segundo em 2003. Neles eu descrevo a Bruxelas das Brontës, como eram os lugares, e, uma coisa muito legal durante a pesquisa para o livro foi que eu encontrei uma dúzia de artigos antigos, escritos por pessoas que estavam no pensionnat antes de ele ser demolido. Estes escritos estão publicados na íntegra. Cerca de seis anos atrás, eu encontrei uma foto de uma das pinturas específicas que Charlotte menciona em Villette.

Villette é, de fato, a reprodução da vida de Charlotte Brontë? 

Sim, totalmente autobiográfico. Posso afirmar que Charlotte descreveu com precisão o antigo bairro onde ficava o pensionnat. Tem uma parte em Villette que Lucy Snowe, desesperada, entra numa igreja e se confessa com o padre Silas. Essa confissão é autobiográfica. No livro também ela vai ver uma exposição, no capítulo ‘Cleópatra’. Ela, de fato, foi para uma exposição de fotografias em Bruxelas. O passeio que ela fez com Monsieur Paul Emanuel também foi real e a paixão de Lucy por ele, lógico, foi a paixão dela por Monsieur Constantin Heger, além de centenas de outros fatos. 

Em sua opinião a paixão de Charlotte por Constantin foi correspondida? 

Recentemente uma escritora holandesa / belga, Jolien Janzing, publicou De Meester, um romance sobre isso (em holandês), e ela mostra os dois se beijando. Isso ofendeu várias pessoas que acreditam que ambos não fariam uma coisa dessas. Quem sabe? Nós podemos apenas especular. Embora se possa afirmar que Charlotte, de fato, se apaixonou por Monsieur Heger, o resto é especulação.

Existe evidência de que Constantin Heger respondeu às cartas de Charlotte? 

Não há provas físicas de que ele tenha escrito, mas elas podem estar perdidas. As pessoas gostam de pensar que Charlotte pode tê-las enterrado como Lucy fez em Villette. Existem quatro cartas conhecidas de Charlotte para Heger. Em uma delas, ela se refere a uma carta que ele escreveu. Portanto, mesmo não havendo evidência física, ele deve ter escrito, senão, por que ela falaria da carta? De qualquer forma, um dia elas podem aparecer. Gostaria de destacar que ela pedia a ele uma carta, sempre pedia, quase implorava, aliás, tudo o que ela podia fazer era pedir uma carta, como todos sabemos, o amor é cego, e ele pode ter respondido sim. 

Você me falou sobre uma outra carta perdida. Qual? 

Eu acredito que havia também outra carta de Charlotte para Heger, uma quinta carta, que também se perdeu . Estamos atrás dela. Na verdade, meu amigo Brian Bracken, que descobriu o manuscrito perdido de Charlotte, L’Ingratidão, me contou sobre a evidência dessa quinta carta de Charlotte. 

Charlotte era uma pessoa melancólica por natureza, você acredita que ela escolheu um homem casado para amar numa tentativa inconsciente de manter aquele estado de tristeza? Pois, de fato, ela sabia que se tratava de um amor impossível. 

Eu acho que, realmente, não se pode escolher por quem se apaixonar. Também acredito que ela teria gostado de se apaixonar por um homem solteiro. De qualquer maneira, era um amor impossível, você tem razão. Não podemos nos esquecer de que Monsieur Heger era um homem casado, com algumas crianças muito jovens. Muito bem casado, aliás. Contudo, como falei, não escolhemos por quem nos apaixonamos, mas Charlotte deve ter sabido que, de fato, era um amor totalmente irrealista. E o mais importante, claro, é que ela produziu um maravilhoso romance com isso tudo, pois Villette é espetacular. Muito bom ouvir agora que existe uma tradução brasileira.  

Você acredita que pode ter havido algum contato físico entre Charlotte e Monsieur Heger? Insisto: é possível que ele a tenha amado também? Qual é o seu sentimento sobre isso? 

Concordo com Jolien Janzing, que escreveu De Meester, que pode ter havido um beijo. É possível. Mas, não há ainda como afirmar isso. No entanto, eu não acho que ele a amava. Ambos eram grandes mentes intelectualmente atraídos um pelo outro. Mas, fisicamente ela não era uma mulher atraente. 

Charlotte Brontë

Elizabeth Gaskell, na biografia de Charlotte Brontë, omite a paixão de Charlotte por M. Heger, contudo, sabemos que Gaskell o visitou, que leu as cartas restauradas por sua esposa, pois ele as tinha rasgado e jogado no lixo, então, por que a Sra. Gaskell falhou? Você acredita que foi a pedido de Patrick Brontë ou de Arthur Bell Nicholls? 

Não. O pai e o marido de Charlotte não influenciaram a Sra. Gaskell em que escrever, isso é um fato. O irmão Branwell, o reverendo Patrick Brontë e Arthur Bell Nicholls foram três homens que sempre tiveram uma má reputação, em parte, graças a Sra. Gaskell. Eles foram os bodes expiatórios. A Sra. Gaskell, na biografia, cita seletivamente partes das cartas. Ela fez tudo o que podia para não parecer que Charlotte tinha uma paixão por Heger. Ela tentou fazer de Charlotte uma santa. E, é claro que a revelação dessa paixão teria danificado a reputação de Charlotte. 

Imagina, naquela época, se as pessoas soubessem que ela havia se apaixonado por um homem casado e, ainda por cima, um católico? Seriam dois escândalos para uma Inglaterra protestante. Pode ser também que Charlotte sequer admitisse para si mesma que ela fosse apaixonada por ele. Portanto, na biografia, que tem seu peso, é lógico, a Sra. Gaskell culpou muito da infelicidade de Charlotte, demonstrada nas cartas, aos problemas do seu irmão, o Branwell. Dessa forma, ela conseguiu esconder o problema real.

Que tipo de homem era Constantin Heger? 

Ele está descrito em Villette. Monsieur Paul é o protótipo dele, cem por cento.

Sabemos que Monsieur Paul Emanuel foi inspirado em Constantin Heger, mas, em sua opinião, Mr. Rochester e os outros personagens masculinos criados por ela?

Sim. Mr. Rochester também foi inspirado em Constantin Heger. Eles eram idênticos na rudeza, ao mesmo tempo eram doces e sensíveis. Eram inteligentes; aliás, todos os personagens dela o eram. Ela não criaria um herói obtuso. Também eram pessoas de bom caráter. Há diversos traços do professor em todos os personagens masculinos de Charlotte Brontë. Não podemos nos esquecer de que Mr. Moore, de Shirley, é da Antuérpia, na Bélgica. Será coincidência? Sem mencionar a obra O Professor, também autobiográfica e um ensaio para Villette.

Madame Heger e Constantin foram casados por quanto tempo? É verdade que ela foi a segunda esposa de Constantin? 

Ele tinha sido casado por alguns anos, mas a sua primeira esposa morreu, em 1835. Ele logo se casou com Madame Heger e ficaram juntos até a morte. Então, eles ficaram casados por mais de cinquenta anos. Ela sempre, e injustamente, teve má reputação. Mas, acho que ela se comportou muito bem e de forma discreta. Ela era a diretora da escola, além de esposa dele. Eu lhe pergunto: o que você faria em sua posição, visto que a inglesa havia caído de amor pelo seu marido? 

Após a morte de Charlotte, fala-se que Heger mostrou com orgulho as cartas para os turistas que passavam para vê-las? Isso é verdade? 

Sim. Em anos posteriores, Heger conversou com visitantes sobre Charlotte. Isso mostra que ele tinha orgulho de ter sido o mestre dela e até de tê-la tornado uma escritora melhor. Os anos que ela passou em Bruxelas foram fundamentais para a sua carreira como autora. Sem as aulas de Monsieur Heger ela não teria escrito tão bem. Ele era professor de literatura francesa, então Charlotte estudou grandes nomes, como Victor Hugo, por exemplo, e muitos outros. 

Existe alguma evidência de que Monsieur Heger e a esposa leram Villette? 

Não há evidência física, mas eu acredito que eles leram sim. Em 1855, havia duas traduções piratas de Villette, publicadas em Bruxelas, e havia apenas uma tradução oficial em francês. 

Qual foi a descoberta mais recente sobre Charlotte Brontë? 

A última descoberta foi feita por meu amigo Brian Bracken, que também é um grande pesquisador. Brian vive em Bruxelas, o que torna tudo mais fácil, é claro. Foi ele quem descobriu o manuscrito perdido Charlotte, L’Ingratidão, que ela escreveu para sua fonte inspiradora, Monsieur Heger. L’Ingratidão foi escrito por ela em 16 de março de 1842, é o primeiro conhecido pedaço de lição de casa dada a ela por Heger. Brian o encontrou no Musée Royal de Mariemont um século depois da última pessoa ter ouvido falar nele, que foi em 1913, ocasião em que foi dado a um rico colecionador belga pelo filho de Heger, Paul.  Certamente haverão novas descobertas. As cartas de Heger para Charlotte, por exemplo. Seria maravilhoso se aparecessem.

Entrevista por Chirlei Wandekoken

Veja as obras de Charlotte Brontë já lançadas pela Pedrazul Editora:
Shirley (2ª Edição) – Capa comemorativa 200 anos de Charlotte Brontë
Shirley (2ª Edição) – Capa tradicional
Villette (2ª Edição)

Veja as obras de Anne Brontë já lançadas pela Pedrazul Editora:
A Inquilina de Wildfell Hall