O que quase ninguém sabe sobre Belinda!

A polêmica abolicionista

Em 1801, foi publicada a primeira edição da obra, cheia de polêmica, pois a autora claramente apoiava as relações inter-raciais, num momento em que a sociedade inglesa vivia o auge do movimento abolicionista. O livro, portanto, foi recebido num misto de admiração e críticas.

Na edição de 1801, Maria Edgeworth, influenciada pelas ideias iluministas advindas do início do século XVIII, faz uma crítica à sociedade inglesa – extremamente dividida sobre as questões do tráfico negreiro e da própria escravidão – quando cria um romance entre Belinda e Mr. Vincent, um belo mestiço caribenho, e também une um servo negro a uma branca inglesa sob a bênção do casamento: Juba e Lucy. Isso gerou uma grande polêmica e um debate de importância crucial surgiu, visto que a hegemonia do Império Britânico sobre o resto do mundo dependia em grande parte do trabalho escravo que sustentava suas colônias na África, Ásia e Caribe.

Ilustração original de Belinda que consta na edição da Pedrazul. Miss Portman e o belo mestiço, Mr. Vincent.

Belinda foi a segunda obra que Maria Edgeworth conseguiu publicar e a primeira com o tamanho tradicional de um romance de três volumes (lançado pela Pedrazul em volume único). Seu pai, Mr. Edgeworth, por ser um escritor mais conhecido e tendo sido a grande influência de Maria em sua própria carreira literária, se encarregava de revisar e editar pessoalmente todas as obras da filha antes de irem para as editoras. Vendo a grande polêmica causada pela edição original de Belinda, depois de longos discursos sobre bom senso e precaução, Mr. Edgeworth convenceu a autora principiante a editar o texto e acrescentar algumas pequenas alterações que atenuassem o seu apoio ao movimento abolicionista. Assim, uma segunda edição foi lançada no ano seguinte, em 1802, contendo pequenas divergências. Entretanto, pouco contribuíram para reduzir a polêmica sobre a inclinação política da obra.

Ilustração original da edição da Pedrazul: Juba, o escravo de Mr. Vincent.

Em 1807 a Inglaterra decretou o fim do tráfico negreiro em todo o Império Britânico, enquanto a escravidão em si ainda era uma prática permitida nas colônias, mas não na metrópole. Em meio a esse clima de instabilidade política, e com a intensificação dos movimentos exigindo a abolição completa da escravidão, Maria Edgeworth e seu pai passaram anos editando novamente o texto de Belinda, até que, em 1810, uma terceira edição foi publicada. Esta edição – a mais conhecida atualmente e lançada em língua portuguesa pela Pedrazul – contém mudanças significativas na trama que não deixavam dúvidas quanto à relutância da autora e de sua família em tornar aberto e explícito o seu apoio ao movimento abolicionista. Nesta terceira edição, Edgeworth eliminou um casamento inter-racial entre dois personagens secundários que ainda estava presente em ambas edições anteriores, e alterou uma possibilidade de casamento entre a protagonista Belinda e um personagem mestiço do Caribe, deixando esta parte da trama muito mais duvidosa e representando-a apenas como uma possibilidade distante e quase impossível.

A edição de Belinda de 1802 está disponível em versão acadêmica pela editora Oxford, enquanto a famigerada primeira edição de 1801 só sobrevive atualmente em poucos exemplares espalhados pelo mundo, um dos quais está em exibição protegida na Senate House Library, em Londres.

 

Fonte: pesquisa da tradutora Bianca Costa Sales para sua monografia sobre as obras Belinda Mansfield Park.

 

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