Ping-pong com Silvia Spadoni

Nesta entrevista, a autora dos romances Um Amor Conquistado, Um Amor Inesperado e Um Amor Apaixonado, da da série Amores,  fala um pouco sobre sua carreira, o gênero que escolheu começar a escrever, e de si mesma. Ela que se descreve como uma pessoa de mente inquieta, que não se acomoda de forma alguma, que adora desafios, que também é generosa, sobretudo reconhece que as conquistas não têm o mesmo valor se não forem compartilhadas com aqueles que lhe são caros. “Escrever é a paixão de toda uma vida vivenciada agora na fase madura”. Sobre o gênero que ela escolheu para começar a sua carreira, ela ressalta: “É mais fácil ser romântica e idealista num romance de época”.

Qual o hobby de Silvia Spadoni?

Ler é meu hobby principal, mas também sou fã de cinema. Em ambos eu gosto daquilo que me surpreende. Seja por uma trama bem desenvolvida ou um final inesperado num romance histórico ou num romance policial. Entretanto, confesso, que já li muitos romances de banca, pois adoro os clássicos históricos que eram publicados pela Harlequim.

Conte-nos um pecado literário.

Um pecado literário (risos). Está bem, confesso uma heresia para as amantes de literatura: troco livros nos sebos! Só guardo aqueles que são realmente meus preferidos.

Qual a preferência culinária da Silvia e aquilo que quase todo mundo ama e ela detesta?

Amo queijos, especialmente o camembert ou brie. Os chocolates também são minha perdição. E embora more numa cidade cuja temperatura média gire em torno dos 30 graus, bebo muito chá quente com limão! Até no verão! Detesto café de garrafa térmica.

Conte-nos suas paixões?

Minha família, viagens e cachorros!

O que é a ‘cara’ da Silvia?

Minha casa sempre tem movimento, adoro receber os amigos e nunca deixo de arrumar a mesa com capricho. Posso servir um simples spaguetti, mas a mesa vai ter uma toalha bonita, taças de cristal, velas ou flores. A comida fica muito mais saborosa numa mesa bem arrumada.

Meus filhos são adultos, moram sozinhos, mas eu ainda decoro a casa todo o ano para o Natal. Eles vêm sempre no primeiro sábado de dezembro para fazermos isso juntos.  Minha árvore tem enfeites de quando eles eram crianças, alguns feitos por eles próprios. Eu acrescento três novos a cada ano desde que me casei. É uma árvore cheia de história, e montá-la um ritual que reúne a família.

Por que resolveu mudar da advocacia para a escrita? O que te motivou?

Escrever sempre foi um sonho. Infelizmente no Brasil é muito difícil viver de sonhos. Mas não se deve desistir deles não é mesmo? Direito foi uma paixão da juventude, eu me dediquei a ela e fui feliz. Mas nunca abri mão do sonho de escrever, apenas o releguei para o momento mais apropriado. O Direito da juventude me permitiu viver a literatura agora. Escrever é a paixão de toda uma vida vivenciada agora na fase madura.

Por que romance de época? Já tinha lido autoras que escrevem este gênero? Quais?

Gosto de romances de época. Eles são leves, divertidos e românticos!! A realidade atual dificulta criar no tempo presente heroínas que acreditem no ‘felizes para sempre’ ou heróis com senso de honra e dever acima de desejos pessoais, infelizmente. Eu gosto de contar histórias que façam as pessoas pensarem que isso ainda vale a pena, que amores improváveis não são necessariamente impossíveis e que finais felizes podem existir.  É mais fácil ser romântica e idealista num romance de época.

Li autoras clássicas que escreveram à sua época como Jane Austen. Se você se refere a autoras atuais li Julia Quinn, Mary Balogh e dezenas de clássicos históricos da Harlequim, como mencionei.

Um Amor Inesperado se passa no século XIX na Inglaterra e narra um amor improvável que dá certo.

Autores que você sempre admirou e leu. Acha que possui referências deles?

Essa é uma pergunta recorrente e sempre me sinto constrangida ao respondê-la porque li muito e a cada fase admirei um autor ou um estilo. Todos sempre me acrescentaram algo, mas não vejo em mim nenhuma influência forte de algum em especial. Acho que aprendi um pouco com cada um, e costumo dizer que aprendi não só com o que admirei, mas também com aquele que, eventualmente, não me agradou.

Como a história que o leitor lê no final chega a você? O que a inspira?

Cidades me inspiram, locais bonitos me inspiram, personagens históricos me inspiram, às vezes até um personagem me inspira. Por exemplo, no capítulo extra de Um Amor Inesperado há um sarau na casa de Melissa e ela comenta que a professora de piano da filha, Flora, vai se apresentar. Quem seria Flora?, foi a pergunta que instintivamente eu me fiz. E já a vi, uma jovem delicada, educada, apaixonada por Bach, e que por algum tropeço do destino precisa lecionar piano para sobreviver. E como ela acaba se envolvendo com um nobre escocês rude e… não vou contar mais! Vou escrever sobre ela. A Flora é a heroína do meu novo projeto.

O que a escrita significa para você?

Prazer!! Escrever é um prazer! Significa a realização de um sonho, a reinvenção na terceira idade… Um escritor não se realiza apenas escrevendo, ele realmente se realiza quando suas palavras atingem e agradam aos leitores. Eu escrevo com muito amor, e realmente espero que minhas histórias possam agregar alegria à vida daquele que se interessa em conhecê-las.

O romance que traz o contexto histórico da Queda da Bastilha se passa no século XIX na Inglaterra e na França. É mais um amor improvável que dá certo.

Ambrósio: vítima ou vilão?

Por Maria Aparecida Mello Fontes

É uma verdade universalmente reconhecida que um padre não pode se casar. Mas será que foi sempre assim? E por quê?

A história traz documentos que provam que o celibato já existia nos primórdios da Igreja. Na verdade, desde o início homens casado podiam se tornar padres, mas eles deveriam se separar de suas esposas antes disso. Então não se tratava de celibato, mas abstinência, pois já haviam conhecido os prazeres da carne. A regra do celibato como a conhecemos foi determinada por Gregorio VII em 1073, declarando que o matrimônio dos sacerdotes era herético, porque os distraía do serviço ao Senhor e contrariava o exemplo de Cristo. Há quem diga que a decisão foi tomada para evitar que os bens dos bispos e sacerdotes casados fossem herdados por seus flhos e viúvas em vez de beneficiar a Igreja. Também havia outra questão: o matrimônio era sagrado e, portanto, sacramentado. Assim, não era certo para um homem abandonar sua esposa para ser ordenado.

Em O Monge, de Matthew Gregory Lewis, Ambrósio é seduzido por Matilda. No lugar da extrema-unção que deveria trazer a paz necessária ao moribundo, o padre concorda com a transgressão, traindo seus votos de castidade e aproximando o prazer do sexo à morte da sua vítima. Na verdade, Ambrósio parace ter um intenso desejo físico pelas mulheres que se encontram inconscientes ou à beira da morte. Seria essa uma forma de perversão sexual? Talvez a explicação seja simplesmente a chance de escapar impune, sem abalar sua reputação de homem devoto, ou seja, sem deixar testemunhas para os seus pecados.

Mas será que o celibato é possível ou mesmo natural?

Enquanto alguns acreditam que Ambrósio deixou-se seduzir pelas tentações do mal, eu prefiro crer que não se trata da presença do diabo na história, mas sim da ausência de Deus. Será que o celibato é assim tão importante aos olhos de Deus?

Aliás, essa é uma boa maneira de ler O Monge. Além dos horrores por trás da história de alguns personagens, tente encontrar a presença de Deus na vida deles e perdoe Ambrósio por ao menos um dos seus pecados. Lembre-se: Ambrósio não tinha vocação para o sacerdócio, ele foi abandonado nas portas do mosteiro e tornou-se um monge por falta de outra opção.

Pobre Ambrósio!

Pintura de Cornelis Cornelisz Van para O Monge.

 

 

 

 

 

 

“A escrita é uma conversa do autor com o mundo”

Foto de Romina Genovesi.

Laís Rodrigues, 30 anos, a autora de Primeiras Impressões, relata algumas curiosidades sobre o livro e sobre ela mesma. Advogada de formação e ‘respondona de nascença’, como ela mesma se define, a autora é daquele tipo de pessoa que tem argumento para tudo, uma semelhança pra lá de inusitada com a personagem mais famosa de Jane Austen, Elizabeth Bennet. “Sempre deixo meus pais de cabelo em pé e meu marido desesperado”, brinca a autora que sempre foi uma leitora voraz e nerd de carteirinha, e com muito orgulho, segundo ela. “Isso foi graças ao incentivo incessante dos meus pais. Minha mãe costumava ler conosco – comigo e minha irmã mais nova – desde que éramos pequenas e nos levava muito ao teatro. Meu pai, por outro lado, era bem rígido na hora de dar brinquedos – apenas em datas comemorativas e se tínhamos boas notas –, mas jamais nos negou um livro de presente”.

A entrevista completa você lê aqui e, se você já leu Primeiras Impressões, fique atendo às nossas redes sociais, pois vamos publicar diversas curiosidades sobre a obra.

Qual o seu gênero preferido e o que faz quando não está lendo?

Laís: Gosto de ler praticamente de tudo! Adoro fantasia, ficção científica, distopia, suspense, e, óbvio, romance. E quando estamos falando de romance vale de tudo: desde romances históricos a chick-lits; de comédias românticas a romances dramáticos. Se juntar um bom livro e uma rede, sinto-me no paraíso! E do que mais gosto além de ler compulsivamente? Curtir minha família, apertar meus gatos, relaxar na praia, assistir tudo de novidade na Netflix, boiar na piscina, happy hour com amigas e, principalmente, ESCREVER. Muito. Não há terapia melhor para mim do que criar histórias, amores, personagens e mundos.

Por que resolveu escrever? O que a motiva?

Laís: Foi bem acidental, na realidade. Nunca pensei em escrever, mas quando comecei foi impossível parar. Tudo me motiva a fazê-lo. Sempre que assisto a um bom filme ou leio um livro interessante imagino como seria minha versão daquelas histórias. Quando algo engraçado acontece comigo, já vou estruturando uma cena maravilhosa na minha mente. A inspiração vem de todos os lugares: dos jornais, dos amigos, das viagens, dos causos que me contam. Muitas pessoas dizem que a escrita é uma atividade solitária. Não concordo. Na verdade, acho que a escrita é uma conversa do autor com o mundo.

Por que releituras das obras Austen?

Laís: Jane Austen é uma das minhas autoras favoritas. E, ao ler suas obras, que têm muitas questões relevantes e atuais para nossa realidade, imaginei como seriam aquelas histórias maravilhosamente adaptadas ao século XXI. Até que decidi começar escrevê-las. E quanto mais escrevia, mais ideias surgiam.

Podemos afirmar que sua principal referência foi Austen?

Laís: Bem, meu primeiro livro publicado é uma adaptação de uma obra dela, então, a referência de Austen é enorme. Mas outros autores também me inspiram, é quase como se eles estivessem conversando comigo quando leio suas obras. Autores como J. R. R. Tolkien, J. K. Rowling, Stephen King e outros.

Como a história que o leitor lê no final chega a você?

Laís: Acredito que a inspiração vem quando você está aberto a ela e ao mundo. Tudo à minha volta me inspira. Literalmente tudo. Quando tiramos o preconceito e as certezas absolutas do olhar conseguimos enxergar as infinitudes do mundo: culturas, religiões, belezas e diferenças. E são exatamente essas infinitudes as mais inspiradoras, pois elas nos ensinam como cada um de nós é único, que nada é óbvio, e que há inúmeras histórias esperando para serem contadas.

 O que a escrita significa para você?

Laís: Significa dividir um pedaço de mim mesma com o mundo.

Cite um quote preferido e diga por que o escolheu?

Laís: Um dos meus favoritos é, coincidentemente ou não, de Orgulho e Preconceito, mais especificamente de Mr. Darcy: “Eu já estava no meio e ainda não sabia que tinha começado“. Fazemos isso o tempo todo: raramente damos verdadeira importância aos momentos preciosos, achando que teremos mais tempo para aproveitar, quando, na realidade, já estamos no meio de tudo, já estamos respirando e sobrevivendo. Mas não deveríamos simplesmente sobreviver, deveríamos viver. Infelizmente, as questões de dia a dia, trabalho, relacionamento, filhos, estresse, etc fazem com que nos esqueçamos dessa verdade absoluta imortalizada por Renato Russo: “deveríamos viver a vida como se não houvesse amanhã”. E é isso que a literatura é para a mim: vida. Poder viver histórias diferentes, mundos diferentes, aventuras diferentes todos os dias.

 

Adquira Primeiras Impressões aqui: 

Talvez você se interesse por outros livros publicados pela Pedrazul: 

O que quase ninguém sabe sobre Belinda!

A polêmica abolicionista

Em 1801, foi publicada a primeira edição da obra, cheia de polêmica, pois a autora claramente apoiava as relações inter-raciais, num momento em que a sociedade inglesa vivia o auge do movimento abolicionista. O livro, portanto, foi recebido num misto de admiração e críticas.

Na edição de 1801, Maria Edgeworth, influenciada pelas ideias iluministas advindas do início do século XVIII, faz uma crítica à sociedade inglesa – extremamente dividida sobre as questões do tráfico negreiro e da própria escravidão – quando cria um romance entre Belinda e Mr. Vincent, um belo mestiço caribenho, e também une um servo negro a uma branca inglesa sob a bênção do casamento: Juba e Lucy. Isso gerou uma grande polêmica e um debate de importância crucial surgiu, visto que a hegemonia do Império Britânico sobre o resto do mundo dependia em grande parte do trabalho escravo que sustentava suas colônias na África, Ásia e Caribe.

Ilustração original de Belinda que consta na edição da Pedrazul. Miss Portman e o belo mestiço, Mr. Vincent.

Belinda foi a segunda obra que Maria Edgeworth conseguiu publicar e a primeira com o tamanho tradicional de um romance de três volumes (lançado pela Pedrazul em volume único). Seu pai, Mr. Edgeworth, por ser um escritor mais conhecido e tendo sido a grande influência de Maria em sua própria carreira literária, se encarregava de revisar e editar pessoalmente todas as obras da filha antes de irem para as editoras. Vendo a grande polêmica causada pela edição original de Belinda, depois de longos discursos sobre bom senso e precaução, Mr. Edgeworth convenceu a autora principiante a editar o texto e acrescentar algumas pequenas alterações que atenuassem o seu apoio ao movimento abolicionista. Assim, uma segunda edição foi lançada no ano seguinte, em 1802, contendo pequenas divergências. Entretanto, pouco contribuíram para reduzir a polêmica sobre a inclinação política da obra.

Ilustração original da edição da Pedrazul: Juba, o escravo de Mr. Vincent.

Em 1807 a Inglaterra decretou o fim do tráfico negreiro em todo o Império Britânico, enquanto a escravidão em si ainda era uma prática permitida nas colônias, mas não na metrópole. Em meio a esse clima de instabilidade política, e com a intensificação dos movimentos exigindo a abolição completa da escravidão, Maria Edgeworth e seu pai passaram anos editando novamente o texto de Belinda, até que, em 1810, uma terceira edição foi publicada. Esta edição – a mais conhecida atualmente e lançada em língua portuguesa pela Pedrazul – contém mudanças significativas na trama que não deixavam dúvidas quanto à relutância da autora e de sua família em tornar aberto e explícito o seu apoio ao movimento abolicionista. Nesta terceira edição, Edgeworth eliminou um casamento inter-racial entre dois personagens secundários que ainda estava presente em ambas edições anteriores, e alterou uma possibilidade de casamento entre a protagonista Belinda e um personagem mestiço do Caribe, deixando esta parte da trama muito mais duvidosa e representando-a apenas como uma possibilidade distante e quase impossível.

A edição de Belinda de 1802 está disponível em versão acadêmica pela editora Oxford, enquanto a famigerada primeira edição de 1801 só sobrevive atualmente em poucos exemplares espalhados pelo mundo, um dos quais está em exibição protegida na Senate House Library, em Londres.

 

Fonte: pesquisa da tradutora Bianca Costa Sales para sua monografia sobre as obras Belinda Mansfield Park.