Tradutora de Uma Noite Escura relata a sua experiência!

Taynée Mendes, tradutora de Uma Noite Escura e Minha Lady Ludlow, ambos da autora Elizabeth Gaskell, relata a sua experiência na tradução da mestra dos romances de época que, aliás, recebeu de Charles Dickens a carinhosa alcunha de “querida Scheherazade”, devido a sua habilidade em contar histórias. “Se você gosta de autores ingleses clássicos, não pode deixar de conhecer as obras de Gaskell, cujo nome é muito famoso e reverenciado na Inglaterra. Numa oportunidade, visite à Westminister Abbey, em Londres, pois há um espaço em homenagem aos escritores ingleses, o Poet’s corner. Lá está Elizabeth Gaskell ao lado de Jane Austen e Charles Dickens”, relata Taynée. Os livros da autora falam sobre as mudanças sociais do século 19, principalmente, as consequências da Revolução Industrial e o papel da mulher em uma sociedade altamente aristocrática. Se você gosta de séries britânicas como Downton Abbey, também vai amar Uma Noite Escura. Na série e nos livros de Gaskell, a chegada da modernidade é um grande desafio para os ingleses arraigados em suas posições sociais e mentalidades do passado.

A tradutora!

Formada em Produção Editorial e Jornalismo, Taynée sempre amou ler e escrever. Iniciou sua carreira trabalhando em editoras onde teve seu primeiro contato com tradução. Também trabalhou no cotejo de obras originais com suas traduções em português, dessa forma, viu de perto as soluções criativas dadas pelos tradutores ao traduzir trechos particularmente complexos, expressões muitas vezes inexistentes em nosso idioma. “Fiquei fascinada por este trabalho e procurei me especializar ainda mais. Percebi que o bom tradutor deve ser, antes de mais nada, um bom leitor. Uma Noite Escura é especial por ser minha primeira tradução de ficção, literatura pura e simples. A meu ver, a principal dificuldade foi adaptar palavras e títulos típicos da monarquia inglesa, algo tão natural para o leitor inglês familiarizado com seu passado histórico e, ao mesmo tempo, tão distante para o leitor brasileiro, que viveu uma monarquia tupiniquim bastante peculiar.”

Peculiaridades de Gaskell!

“Ao ler o primeiro capítulo, nota-se o tom irônico da autora. Percebe-se em sua escrita que, ao abusar dos adjetivos nas falas de alguns personagens, Gaskell pretende criticar o excesso de polidez, apenas aparente, da aristocracia inglesa e, principalmente, da pequena nobreza do condado de Hamley. As intervenções do narrador, geralmente marcadas em primeira pessoa, são utilizadas para dar uma explicação adicional ou para elucidar uma característica que pudesse passar despercebida. A capacidade descritiva da autora também é algo fenomenal. Lembro que as cenas mais dramáticas de Uma Noite Escura e também de Minha Lady Ludlow são descritas de uma forma fria e direta, o que contribui para a sensação de horror ali presente.”

Gosto pelo gênero!

“Acredito que um bom tradutor pode traduzir qualquer coisa, porém há áreas específicas em que o profissional pode se especializar. No caso de tradução literária, acredito que o tradutor precisa ler muitos romances e se familiarizar com os termos próprios daquela área, além de ter uma certa sensibilidade para compreender o estilo do autor. Essa dimensão, dispensável em outros tipos de tradução, é impreterível na tradução literária. E se o tradutor já gosta do gênero, a tradução será ainda mais prazerosa.”

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Surpresa e encantamento!

“Foram várias surpresas durante o processo de tradução. A própria trama de Uma Noite Escura é surpreendente. Quando os personagens são muito bem construídos, você chega a se identificar com eles, uma empatia acontece. Só que quando o personagem sofre, você sofre junto! Lembro que passei dias angustiada com a situação vivida por Ellinor. Gaskell realmente surpreende seus leitores, porque nunca acontece o que se espera que vá acontecer. Nesse sentido, Uma Noite Escura se aproxima dos romances policiais, na medida em que a cada capítulo prende muito a atenção do leitor. Talvez o fato de ter sido originalmente publicado no formato de folhetim possa ter contribuído para isso. Como tradutora e leitora, gostei muito desse suspense!”

Para quem pretende ser um tradutor!

“Leia muito! Principalmente se você quer traduzir literatura. Mais que saber a língua da qual se quer traduzir, é preciso saber bem o português. Por isso, escrever também é essencial. Ter certa prática em jornalismo me ajudou sempre a pensar no leitor, a escrever textos claros e objetivos. Por isso, falar outra língua de forma fluente não faz de ninguém um bom tradutor. É preciso entender as nuances da língua estrangeira e saber expressar esse sentido em sua língua materna. Fico com o conselho de Umberto Eco, em Quase a mesma coisa, mais que reproduzir palavras em outra língua, é preciso buscar o mesmo efeito do original na língua de destino.”

Gratificação!

“Acredito que um livro pode mudar vidas e acho gratificante poder contribuir para que mais pessoas tenham acesso àquele texto que, por conta da barreira do idioma, não teriam.”

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