Silvia Rezende, a tradutora de Cranford, de Elizabeth Gaskell, e Lady Anna, de Anthony Trollope!

Tradutora há mais de dez anos, Silvia já perdeu as contas de quantas obras já passaram por suas habilidosas mãos. Para a Pedrazul, ela traduziu Cranford, de Gaskel, e está na fase final de Lady Anna, de Trollope.

“Os livros são como filhos; alguns saem mais bonitos, outros nem tanto, mas todos levam todo o meu empenho e envolvimento com o trabalho que exerço com tanto carinho e satisfação.”

Blog Pedrazul: Como deu início à carreira de tradutora?

Silvia: Iniciei a carreira de tradução meio que por acaso. Eu tinha acabado de me mudar dos Estados Unidos de volta para o Brasil, junto de meu marido e meus dois filhos, sentindo que precisava fazer algo mais além de me dedicar somente à família; sentindo que precisava me realizar profissionalmente também. Após avaliar várias possibilidades, inclusive retomar o curso de psicologia que eu havia trancado no segundo ano, decidi que iria fazer algo totalmente novo, aproveitando o novo idioma conquistado, e prestei vestibular para o curso de Letras, Tradutor/Intérprete, na extinta UNIBERO. Foram quatro anos de muito estudo, tanto do inglês quanto do português. Mesmo antes de formada eu já tinha em mente que queria trabalhar com tradução editorial, e com este objetivo, saí à luta com um diploma em mão e nenhuma experiência. Não foi fácil conseguir que a primeira porta se abrisse, mas depois de muita insistência e muitos nãos, finalmente consegui uma oportunidade. Mas depois de algum tempo, minha sede de saber e curiosidade, traço que acompanha todo tradutor, não tinha cessado e resolvi retomar meus estudos; e desta vez busquei uma pós-graduação em Crítica Literária, pela PUC de São Paulo. Foi uma delícia circular pelo meio acadêmico novamente, tomar contato com novos autores, novas teorias e conceitos. Ainda tenho planos e um projeto para um mestrado. Quem sabe…

Blog Pedrazul: Quais gêneros você já traduziu?

Silvia: Ao longo da minha carreira já traduzi obras de vários gêneros literários, como por exemplo: livros de receitas, infantis, muita coisa de infanto-juvenis, livros técnicos, e principalmente romances de época, futuristas e contemporâneos.

Blog Pedrazul: Para você é importante traduzir o gênero que gosta?

Silvia: Não creio que seja essencial o tradutor gostar do gênero que traduz, mas sem dúvida isto torna o ato mais prazeroso.

Blog Pedrazul: Quais as maiores dificuldades encontradas por um tradutor?

Silvia: Uma das maiores dificuldades é pegar o jeito do autor, o tom e o estilo. Às vezes isso acontece logo no primeiro capítulo, em outros demora um pouco mais. E o grande desafio nos romances de época é a escolha lexical dos autores, pois muitas vezes nos deparamos com palavras e estruturas que caíram em desuso.

Blog Pedrazul: Quais as maiores alegrias encontradas por um tradutor?

Silvia: O envolvimento com a história, sem dúvida! Normalmente me envolvo com a obra, e não foram poucas as vezes que chorei enquanto traduzia algum trecho triste ou ri muito nos engraçados. O ato de traduzir sempre foi muito prazeroso, pois através dele tenho contato com outras culturas, personagens, histórias e estilos de escrita, além de possibilitar que outras pessoas possam ter acesso a obras originalmente publicadas em outro idioma. Confesso que acabo me apegando ao livro que estou traduzindo e sofro para deixá-lo partir. Leio e releio, melhoro alguma coisa, e sempre tenho a impressão de que se lesse mais uma vez ainda iria encontrar algo mais que poderia ser aprimorado. Os livros são como filhos; alguns saem mais bonitos, outros nem tanto, mas todos levam todo o meu empenho e envolvimento com o trabalho que exerço com tanto carinho e satisfação.

 "Estudem sempre, tanto o idioma de partida quanto o de chegada, principalmente, pois é essencial o domínio do idioma para o qual se está traduzindo. Leia muito e de tudo para ampliar o vocabulário, estude sempre, vá ao cinema e ao teatro, viaje muito, se possível."
“Estudem sempre, tanto o idioma de partida quanto o de chegada, principalmente, pois é essencial o domínio do idioma para o qual se está traduzindo. Leia muito e de tudo para ampliar o vocabulário, estude sempre, vá ao cinema e ao teatro, viaje muito, se possível.”

Blog Pedrazul: Conte-nos como foi o processo de tradução de Cranford?

Silvia: Adorei quando soube que iria traduzir Cranford para Pedrazul, pois apesar de ainda não ter lido o livro e eu já tinha assistindo alguns episódios da fantástica série televisiva inspirada nesta obra e produzida pela BBC de Londres. O livro superou todas as minhas expectativas. Ao longo do trabalho fui me afeiçoando aos personagens, rindo com as suas aventuras e sofrendo com as desventuras. Gaskel tem um senso de humor e crítico incríveis, que lembra muito o de Jane Austen. Ela, assim como Austen, que foi sua antecessora, escrevia numa época em que ser escritor não era coisa para mulheres, que nem tinham direito a herança. Porém de uma forma bem-humorada e que soa natural, ela cria a fictícia Cranford, cidade no interior da Inglaterra, habitada por solteironas e viúvas, que dominam a cidade tanto no aspecto financeiro, pois elas são donas das melhores casas, quanto no social, pois são elas que ditam as regras de conduta da cidadezinha. Trata-se de uma história cativante, comovente, engraçada e sensível.

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Blog Pedrazul: Há uma expectativa imensa em torno de Lady Anna, pois Anthony Trollope é ainda quase desconhecido no Brasil. Conte-nos um pouco dessa experiência.

Silvia: Lady Anna é o segundo livro que estou traduzindo para a Pedrazul e tive o prazer de poder escolhê-lo entre outros tantos. A editora me mostrou briefings de obras e me deu a oportunidade da escolha. Isso é um diferencial na Pedrazul! Nesta obra, o estilo do autor deu um pouco mais de trabalho e levei um tempo para me acostumar com seus parágrafos extensos e palavras que caíram em desuso. A trama é forte, os personagens mostram caráter e personalidade e o autor consegue manter o clima de suspense até o final. Mas Lady Anna, além de ser uma história de amor, tem também uma forte vertente sociológica. Trollope questiona as diferenças entre a classe nobre inglesa e a classe trabalhadora e os preconceitos de ambos os lados. É uma narrativa intensa, que apesar de ter sido escrita em 1871 e publicada pela primeira vez no formato livro em 1874, ainda é atual, pois aborda temas universais como o amor e as lutas de classes. Tenho certeza de que os leitores vão amar tanto quanto eu esta intensa história de amor.

Blog Pedrazul: Qual conselho daria para quem deseja iniciar carreira como tradutor?

Silvia: Estudem sempre, tanto o idioma de partida quanto o de chegada, principalmente, pois é essencial o domínio do idioma para o qual se está traduzindo. Leia muito e de tudo para ampliar o vocabulário, estude sempre, vá ao cinema e ao teatro, viaje muito, se possível. Nunca perca a curiosidade. Desconfie sempre das palavras, elas são traiçoeiras e adoram pregar peças. Nunca desista no primeiro não que escutar, insista, persista, e traduza para treinar e adquirir prática. Mas acima de tudo, trabalhe com amor.

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Talvez se interesse por mais obras Elizabeth Gaskell: Esposas e Filhas, O Chalé de Morland, Margaret Hale (Norte e Sul)
Quem se interessa por Margaret Hale (Norte e Sul), também se interessa por Um Coração Para Milton, de Trudy Brasure.
Sobre Anthony Trollope, talvez se interesse por A Senhorita Mackenzie
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2 comentários em “Silvia Rezende, a tradutora de Cranford, de Elizabeth Gaskell, e Lady Anna, de Anthony Trollope!

  1. Esta senhora é uma das melhores tradutoras que conheci, além de traduzir ela vive a história e transmite -a com uma naturalidade incrível. …Rez

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