Longe Deste Insensato Mundo – Thomas Hardy

Far From the Madding Crowd, lançada em 1864, foi a obra com a qual Hardy ganhou notoriedade e se tornou um autor conhecido na Europa e fora dela. Atendendo aos seus leitores – que o solicitaram, provavelmente devido à adaptação cinematográfica da BBC , a edição da Pedrazul tem o título de Longe Deste Insensato Mundo.

Assim que você inicia a leitura deste livro compreende por que ele deixou o autor famoso. Longe Deste Insensato Mundo é inquestionavelmente belo: as paisagens são idílicas e o leitor se imagina caminhando por elas, em meio às ovelhas, sentindo o vento no rosto, pois Hardy faz alusão aos elementos da natureza em diversos trechos do livro; se imagina olhando as estrelas e ouvindo os suaves sons da flauta tocada por Gabriel Oak, o charmoso e íntegro fazendeiro que veio a se tornar um simples pastor de ovelhas.

“O céu estava claro, extremamente claro, e o brilho de todas as estrelas parecia não ser mais do que batimentos de um corpo, marcado por um pulsar comum.”

“Um exame cuidadoso do solo nas redondezas, mesmo que apenas sob a luz das estrelas, revelaria as figuras esbranquiçadas das mansas ovelhas.”

 “De repente, uma inesperada série de sons foi ouvida neste lugar. Eram de uma clareza que não podia ser encontrada em parte alguma do vento, e uma sequência que não podia ser encontrada em parte alguma da natureza. Eram as notas da flauta do fazendeiro Oak.”

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Longe Deste Insensato Mundo é uma mistura do idílico com o real. Ao mesmo tempo em que o livro traz uma doçura extrema na pessoa de Gabriel Oak, no cenário, na natureza esplendorosa e cativante, Hardy ousou quebrar o arquétipo da mulher vitoriana submissa, pura, donas de casas perfeitas e fiéis. Aliás, as heroínas de Hardy são bem humanas, com desejos sexuais como os homens e, mesmo àquela época, ousavam demonstrá-los. Aqui, tanto Bathsheba Everdene quanto Fanny são mulheres reais, com seus desejos, e ousaram buscá-los.

A personagem principal, que recebe da parte de Hardy o nome de Bathsheba, numa referência à personagem homônima pela qual o rei Davi se apaixonou e se “desgraçou”, é ousada, franca e obstinada. Mas, mesmo Hardy sendo um autor com fama de pessimista, em Longe Deste Insensato Mundo não há grandes tragédias! Fiquem tranquilos!

Bathsheba, antes uma pobre camponesa, recebe uma herança da parte de um tio e se torna proprietária de uma vasta propriedade rural em Weatherbury, no interior da Inglaterra. A expansiva moça, ainda quando pobre, havia conhecido o fazendeiro Gabriel Oak, um homem sensato e justo, e ele tinha se interessado por ela a ponto de lhe propor casamento – coisa que ela não aceitou, alegando que não o amava. Embora o rapaz tivesse questionado, dizendo que a amaria acima de qualquer coisa e que seu amor era tão intenso que ele a amaria “por ele e por ela”, isso não funcionou para mudar a decisão da espirituosa moça.

“O amor, entretanto, é uma força possível na fraqueza real. O casamento transforma uma distração num apoio, o poder que deve ter e felizmente sempre tem em proporção direta ao grau de imbecilidade que suplanta. Oak começou a ver luz em sua direção e disse a si mesmo: “Vou fazer dela minha esposa, ou juro que não servirei para nada!”

 Gabriel Oak é aquele tipo de homem que daria o marido perfeito: amoroso, bondoso, íntegro, trabalhador, assertivo e não agressivo, além de belo. Que mulher no século XIX não aceitaria tal homem como marido? Bathsheba Everdene. Ela, assim como seu pai no passado, como por genética, tinha aversão ao compromisso do “viveram felizes para sempre”. Conta-se que o pai da moça, para continuar sentido atração pela esposa, embora esta tivesse sido a mulher mais bela do condado, tinha que “fingir” para ele mesmo que ela era solteira e não casada com ele. Portanto, Bathsheba, pelo jeito, havia herdado tal gene.

Abro um parêntese aqui para falar da vida do autor. Creio que Hardy se inspirou nele mesmo para criar Bathsheba. O autor se casou com Emma Lavinia Gifford, em 1874, após o sucesso estrondoso dessa obra. Entretanto, não tiveram filhos e foram muito infelizes. Mas, quando Emma morreu, ele se descobriu apaixonado por ela e amou “sua mulher morta e enterrada como nunca a amou em vida”, mesmo já estando casado com outra, uma autora infantil chamada Florence Emily Dugdale. Isso não lhe parece familiar?

Bem, voltando à ficção, algo acontece e o fazendeiro Oak perde tudo, e o destino o leva a ser um simples pastor de ovelhas da fazenda da agora rica Bathsheba. E o rapaz continua apaixonado por ela: “Oak, de repente, se lembrou de que oito meses antes ele havia lutado contra o fogo, no mesmo local, tão desesperadamente como ele agora lutava contra a água e pelo amor fútil da mesma mulher”.

 Entretanto, Bathsheba, que tinha aversão ao casamento, inquietava-se com verdadeiro destempero quando não era notada ou admirada pelo sexo oposto. Vizinho à sua fazenda morava um enigmático fazendeiro de meia-idade, Mr. Boldwood. Este não a notara e nem caíra de amor por Bathsheba. Boldwood já havia sido alvo de todas as moças casamenteiras daquela região e nenhuma delas conseguira levá-lo ao altar. Ela, então, numa brincadeira, usando o Dia dos Namorados como pretexto, envia-lhe uma mensagem. Aqui ela, irresponsavelmente, dá início a um drama que ela poderia muito bem ter passado sem ele. Quando o sedutor sargento Troy aparece na história, a jovem dama faz uma escolha terrível, a pior delas, confirmando que a máxima de que ‘mulher se apaixonada pelo cara malandro’ é bem antiga.

“[…] a cegueira pode operar de forma mais vigorosa do que a presciência, e o efeito míope mais do que se vê ao longe; essa limitação e não a integralidade é necessária para a luta.”

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Em Longe Deste Insensato Mundo o destinos de três homens dependem da escolha de uma mulher, e ela descobre as terríveis consequências do seu coração inconstante. Hardy nos faz refletir sobre a diferença entre paixão e amor: a volatilidade da paixão e a durabilidade do amor verdadeiro. Aquele que quer o bem da pessoa, mesmo sendo rejeitado. Na paixão não há isso…

“As ofertas mais raras do mais puro amor não passam de comodismo e nada têm de generosidade.”

“O afeto deles era substancial, palpável. Os dois, que foram colocados juntos, conheciam os lados mais sombrios do caráter um do outro. O romance, agora, cresceria nos interstícios de uma massa da realidade dura e prosaica. Esta boa-comunhão-camaradagem, que geralmente ocorre através da semelhança, é, infelizmente, raramente adicionada na busca do amor entre os sexos, pois homens e mulheres não se associam em seus trabalhos, mas em seus simples prazeres. Onde, no entanto, a feliz circunstância permite o seu desenvolvimento, o sentimento prova ser o único amor que é forte como a morte, o amor que muitas águas não podem apagar, nem os rios afogar, ao lado do qual a paixão normalmente é evanescente como vapor.”

 É um romance de paixão, de amor e afeto, com descrições da vida rural e paisagens idílicas, e mostra com extrema honestidade as relações sexuais na época. O meu personagem preferido é Gabriel Oak. Não tem como não admirar a sua constância e a sua fidelidade. Há muitos personagens secundários, os empregados da fazenda de Bathsheba são hilários, nos fazem dar boas gargalhadas, e os diálogos mostram a cultura da região.

Mais uma vez aplaudo Hardy de pé! Tornou-se um dos meus autores prediletos por não “maquiar” a realidade e, ao mesmo tempo, ousar contar aquilo que necessita muita coragem! Foi criticado à época e até chamado de imoral; entretanto, é por esse motivo que as suas obras, embora clássicas, são tão contemporâneas!

Tradução de Ellen Bussaglia, a mesma tradutora de Esposas e Filhas, de Elizabeth Gaskell.
Resenha de Chirlei Wandekoken

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Veja também outras obras de Thomas Hardy:
Tess dos D’Urbervilles
O Retorno do Nativo

 

 

 

 

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