TESS DOS D’URBERVILLES – THOMAS HARDY

Uma Mulher Pura
Quando um grande autor, tem que a sorte de encontrar um grande tema, o resultado é uma obra grandiosa! Assim é Tess dos D’Urbervilles.

Nossos impulsos são mais fortes que a razão, às vezes.”  (Cap. I)

 Tess é um livro pungente! Antes de dar início a resenha em si, vale destacar que eu não queria lê-lo exatamente por causa disso. Mas valeu cada página lida! Thomas Hardy era um homem com grande capacidade mental, razão pela qual é conhecido como um dos mais capacitados escritores de todas as épocas, e Tess é a prova disso.

O livro tem início com uma sacada incrível de Hardy. Um impulso de um pároco que, se tivesse se calado, toda a história pararia em seu silêncio, mas ele ousou falar, e, com isso, girou uma roda que mudou a vida de muitas pessoas.

O pobre e bêbado Jack Durbeyfield, o pai da doce Tess, estava indo para casa quando se depara com o pároco de Tringham que o cumprimenta como Sir John. Intrigado com isso, pois era a segunda vez que o clérigo o chamava de Sir, ele o indaga no dialeto local: “Discurpa, sinhô. Mas a gente se encontrô no úrtimo dia de feira nesta mesma estrada, mais ou meno no mesmo horário, e eu disse “Boa noite”, e o sinhô respondeu “Boa noite, Sir John”, iguarzinho agora […] “Posso sabê pru que me chamô de ‘Sir John’ todas essas veis, se apenas Jack Durbeyfield, o mascate?”

Foi aqui que a jornada de Tess teve início. Jack Durbeyfield, ao tomar conhecimento que ele descendia da nobre família d’Urberville, formada por nobres descendentes de Sir Pagan d’Urberville, que veio da Normandia com Guilherme, o Conquistador, ele ficou atônito e tomou a seguinte resolução: se ele era o único descendente de várias gerações de Sir Johns, com título de fidalguia hereditário, de agora para frente ele seria Sir John! Naquela mesma noite o bêbado mascate voltou para a taberna e foi comemorar a incrível descoberta: ele era um nobre! “E eu aqui, perambulando sem rumo, um ano atrás do outro, de um lugá pra outro, como se fosse um quarqué…”, disse Jack Durbeyfield.  Ele ainda ficou sabendo que em Kingsbere-sub-Greenhill, fileiras e mais fileiras de nobres d’Urberville repousavam em criptas com suas efigies em mausoléus de mármore.

Poucos dias depois, Mrs. Joan Durbeyfield, a mãe de Tess, descobriu que havia uma rica senhora com o sobrenome d’Urberville morando em Trantridge e Tess foi coagida a procurar a mulher para falar de tal parentesco. “Sabia que há uma Mrs. d’Urberville muito rica vivendo nos arredor de The Chase e que deve ser nossa parenta? Deve ir até ela e reclamá seu parentesco, e pedir ajuda em nosso momento de dificuldade”, disse Joan. Tess não queria ir. Ela havia estudado até a sexta série e, embora pouco para hoje, para a época e o local, era muito e ela era bastante inteligente. Ao contrário de seus pais, ignorantes e interesseiros, Tess tinha uma boa noção das coisas e tinha boa índole. Mas, como ela se sentia responsável pela morte do único cavalo da família, dessa forma, tirando o sustento dos pais e dos irmãos, ela se culpava e não teve alternativa senão ir procurar a tal dama d’Urberville rica:

“Nessa manhã memorável, a rota de Tess Durbeyfield passava pelas ondulações nordestinas de seu vale natal, o Vale de Blackmoor, onde sua vida desabrochara. Dos portões e degraus de Marlott, fitara o vale em seus imaginativos dias de infância, e o que antes fora misterioso não era menos agora. Vira de seu quarto, diariamente, torres, vilarejos, alvas mansões longínquas; sobretudo, a cidade de Shaston, majestosamente alta, com suas janelas como lamparinas no sol da tarde. Fora do vale, então, nada conhecia.”

Tess então desceu do coche em Trantridge Cross e subiu a pé a colina na direção do distrito conhecido como The Chase, uma floresta antiga localizada a sul e a leste de Shaston, em direção a The Slopes, a propriedade da tal Mrs. d’Urberville. Lá ela foi recebida pelo seu “primo”, Alec d’Urberville, um rapaz mau, que gostou dela imediatamente. Tess ficou trabalhando na propriedade de Alec d’Urberville, para sua cega e inválida mãe, cuidando das galinhas da estranha e excêntrica mulher. Na verdade, esses d’Urbervilles não eram os originais descendentes dos franceses normandos. O pai de Alec, Mr. Simon Stoke, já falecido, fizera fortuna como um honesto comerciante (alguns diriam agiota) no Norte da Inglaterra, e decidira estabelecer-se como um homem do campo no Sul, longe do clima de seu distrito comercial. Ao fazê-lo, sentiu a necessidade de recomeçar com um nome que não o identificasse tão imediatamente como o esperto comerciante; um nome que fosse menos comum. No Museu Britânico ele descobrira, estudando as páginas das nobres extintas famílias, o nome d’Urberville. Considerou que aparentava e soava tão bem e d’Urberville foi, assim, anexado ao seu próprio nome, para ele e para seus descendentes, eternamente.

Na mansão The Chase, onde Tess era uma simples empregada como outra qualquer, porém, a mais bela, tem início o seu martírio, com a obsessão de Alec d’Urberville por ela, o que mudaria toda a sua vida. Daqui para frente, a jornada de Tess e seu amor por Angel Claire – filho do bom e honesto reverendo Mr. Clare, de Emminster, um jovem contestador, que não acreditava na mesma fé do pai e, portanto, não seguiu carreira como pároco, como seus outros dois irmãos – é linda, triste, mas enriquecedora.

Que livro! Não dá para falar mais de Tess sem soltar spoilers. Portanto, vamos falar de Angel Claire!

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“Abençoada seja sua inocência, Tess!” (Cap. II)

Uma parte que eu amo é o período em que Tess viveu na vacaria perto de Weatherbury, em Talbothays, o Vale das Grandes Vacarias, no qual “leite e manteiga transformavam-se em riqueza, a campina verdejante era tão bem irrigada pelo rio Var ou Froom.” Lá ela reviu Angel Clare, “que surge do passado”, pois Tess já havia visto Angel, dois ou três anos antes, numa breve aparição dele no baile de Marlott. Na época, ela tinha gostado dele, mas ele não a notara.

“E assim como cada uma e todas eram aquecidas pelo calor do sol, cada uma possuía seu sol particular para deleite da alma: algum sonho, alguma paixão, algum passatempo, uma esperança distante e remota que, mesmo sufocada, sobrevivia, como costuma sobreviver a esperança.” (Cap. II)

Portanto, encontramos Angel Clare, aos vinte e seis anos, em Talbothays, como um estudante de vacas leiteiras. E, com não havia casas próximas em que pudesse obter alojamento confortável, tornara-se um inquilino do leiteiro. Ele e Tess ficaram amigos; ele se encantou com a beleza e a doçura dela, e se apaixonaram perdidamente, mas ela nada contou de seu passado.

“A beleza ou feiura de um caráter não está apenas em seus feitos, mas em suas intenções e impulsos; sua verdadeira história não se encontra naquilo que realiza, mas naquilo que sonha.” (Cap. XLIX)

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Angel fora para Talbothays para ficar por seis meses, como aprendiz, depois de passar por outras fazendas. Seu objetivo era adquirir a habilidade prática nos vários processos da administração de uma fazenda, com o fim de tentar a vida nas Colônias. Há uma parte do livro que se passa no Brasil, quando Angel veio para cá em busca de oportunidades. Sua entrada no ramo da agricultura e da criação de gado, contudo, não fora um passo antecipado por ele ou por outros. Como ele não queria ser pároco, decidiu ser fazendeiro.

Na vacaria ele e Tess tomaram uma decisão que, mais uma vez, dará um novo norte à vida de Tess, e de Angel.

“E era o toque de imperfeição sobre a quase perfeição que lhe conferia a doçura, pois era aquilo que lhe dava sua humanidade.” (Cap. XXIV)

Tess é um livro extremamente rico. A jornada dessa linda jovem, suas vicissitudes, seu amor por Angel Claire, suas decepções, dores, nos ensinam muito. Thomas Hardy era um homem muito culto, portanto, Tess é uma escola de vida. Se triste ou feliz, não importa, o que de fato conta é que a história jamais vai se apagar de nossa mente e as lições sobre escolhas, ou não; destino, ou seria consequências?, ficarão para sempre! Jamais deixe de lê-lo porque lhe disseram que é uma obra triste. Tess é uma obra-prima grandiosa, é tão profunda que está acima de qualquer pormenor.

Assim operam o fluxo e o refluxo – o ritmo da mudança, que se alterna e persiste em todas as coisas sob o céu. (Cap. L)

A tradução de Luana Musmanno
Resenha de Chirlei Wandekoken

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Veja também outras obras de Thomas Hardy:
Longe Deste Insensato Mundo
O Retorno do Nativo

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