Esposas e Filhas – Elizabeth Gaskell

Gaskell

“A obra-prima de uma vida”
Por Enza Said.

Esposas e Filhas foi o último romance de Elizabeth Gaskell; obra cujo último capítulo jamais foi conhecido devido à morte precoce da escritora inglesa. De todo modo, os destinos dos personagens já haviam sido definidos pouco antes de forma que não ficou difícil de imaginar o belo desfecho jamais escrito pela mão habilidosa de Mrs. Gaskell, com seu jeito único e afetuoso de trazer cenas mais comoventes à vida.

O editor da revista Cornhill, na qual o romance era publicado em série, adicionou seus comentários acerca das intenções reveladas por antecedência pela própria Gaskell para o último capítulo do que seria, segundo ele, “a obra-prima de uma vida” e que acabou se tornando um “memorial da morte”. Eu acredito que Esposas e Filhas foi a obra-prima de uma vida. Trata-se de um romance tão grandioso, embora singelo e despretensioso; tão ousado e, no entanto, prosaico e, aparentemente, simples…

Elizabeth Gaskell
Aliás, é na simplicidade (e, por que não, ingenuidade) da protagonista Molly Gibson que Elizabeth Gaskell conquista o leitor mais uma vez e o apresenta a uma série de figuras pitorescas – ou nem tanto – do interior da Inglaterra vitoriana em que vivia e conhecia tão bem. É verdade, Esposas e Filhas é ambientado na cidade interiorana de Hollingford onde Molly e seu pai viúvo vivem. Ele é o médico das famílias que habitam naquelas áreas e, em virtude da profissão, também possuía relações com as famílias da alta sociedade do lugar, incluindo os nobres Lord e Lady Cumnor e o tradicional fazendeiro Hamley e sua esposa.

A história começa com uma pequena Molly visitando Towers, a grande propriedade de Lord e Lady Cumnor, onde a ex-governanta das filhas do conde acabou negligenciando-a e se “esquecendo” de enviá-la de volta para casa. Mas seu pai a reencontra e tudo acaba bem. Anos mais tarde, Mr. Gibson estava incomodado com as atenções que um de seus pupilos estava dedicando à sua jovem e ingênua filha e a enviou para passar uns dias com a esposa do fazendeiro Hamley, que desejava há tempos conhecer a filha de seu médico.

Molly logo encantou e se afeiçoou profundamente aos Hamleys e, aproveitando sua distância, Mr. Gibson decidiu que precisava arrumar uma nova mãe para instruir, proteger e guiar Molly nessa nova fase de sua vida. Ele logo elegeu aquela que a havia negligenciado anos antes, a ex-governanta das filhas de Lord e Lady Cumnor: Mrs. Kirkpatrick.

Assim que recebeu a notícia, Molly se entristeceu bastante e não conseguiu evitar um choro de desespero e da dor do reconhecimento de que tudo seria diferente dali para frente com seu pai e sua nova esposa. É neste estado de angústia que Roger Hamley – o filho mais novo e menos brilhante do fazendeiro – encontrou-a. O rapaz, contudo, não tardou em se compadecer e consolar a mocinha. Esse foi um dos meus momentos favoritos no livro, foi tão doce e tão puro, inocente e genuíno do jeito que só Gaskell poderia escrever.

“Ela nunca tinha dito a ele uma sentença tão longa. Ao dizê-la, embora ela não tirasse os olhos dele, pois estavam olhando fixamente um para o outro, ela corou um pouco sem saber por quê. Nem ele sabia explicar por que um prazer repentino tomou conta dele, enquanto olhava para o rosto simples e expressivo dela. Por um momento, ele perdeu a noção do que ela estava dizendo por sentir pena dela, por sua tristeza. No momento seguinte, ele já era ele mesmo de novo. Sentiu-se como se fosse o jovem mais sábio de vinte e poucos anos a aconselhar uma menina de dezessete.”

O casamento de Mr. Gibsom com Mrs. Kirkpatrick não tardou a acontecer e, após ele, toda a sorte de eventos inimagináveis para Molly há menos de um ano se sucederam: a filha de Mrs. Kirkpatrick, Cynthia, chega e se torna uma irmã para ela, junto com seus inúmeros pretendentes; a descoberta de segredos acerca do primogênito dos Hamleys, Osborne; uma amizade da nobreza; escândalos envolvendo um administrador de propriedade de moral duvidosa; traições e mais uma série de acontecimentos tão cativantes e bem escritos que tornam, de fato, Esposas e Filhas uma obra-prima.

Gaskell
Como disse o próprio editor da Cornhill Magazine, “[…] o leitor sente-se preso num mundo perverso e abominável, rastejando no egoísmo e fedendo a paixões vulgares, no qual há muita fraqueza, muitos erros, sofrimentos longos e amargos, mas onde é possível que as pessoas levem vidas calmas e saudáveis e, o que é mais importante, que sintam que este mundo é tão real como o outro. As páginas irradiam este espírito amável que nunca deseja o mal e, enquanto as lemos, respiramos a inteligência pura que prefere lidar com as emoções e paixões que têm uma raiz viva na mente, dentro dos limites da salvação, e não naquelas que apodreceram sem elas. Este espírito é mais declarado especialmente em Prima Phillis (também lançamento da Pedrazul) e Esposas e Filhas, as últimas obras da autora. Elas parecem mostrar que para ela o fim da vida não é descer os torrões do vale, mas subir para o ar puro das montanhas que ascendem ao céu”.

Eu não poderia discordar ou dizer melhor. Apaixonei-me por Esposas e Filhas desde a primeira página e me irritei muito com as manias afetadas e a hipocrisia da nova esposa de Mr. Gibson, embora tenha compreendido e sentido pena deste seu jeito intolerável quando o final do livro se aproximou. Quanto a Molly e Roger, só poderia dizer que eles ocupam um espaço muito querido no meu coração e até agora não consigo parar de suspirar ao me lembrar da doçura e humildade de uma e da gentileza e do cavalheirismo (a seu modo) do outro. Mas se tem um personagem que me conquistou neste livro foi Mr. Hamley, o irascível fazendeiro que tinha um coração enorme. Desde o início eu percebi como ele se importava com os filhos, como ele queria dar a eles tudo o que ele não pôde ter e que internamente se repreendia e julgava por não ter tido, como ele era carinhoso com a esposa, admirava-a, e como havia sido tão gentil e acolhedor para Molly. Apesar do seu jeito meio bruto de um proprietário de terras pouco instruído, ele era uma pessoa essencialmente humilde, embora possuísse algumas poucas razões para se orgulhar e nas quais depositar toda a sua vaidade. Acredito que, por essas e outras razões que fogem até mesmo à minha compreensão no momento, ele tenha sido o personagem a quem mais me apeguei, apesar de ter gostado muito das solteironas Miss Brownings e sua irmã Miss Phoebe, a própria Mrs. Hamley, Mr. Gibson, Roger e Molly também.

Gaskell realmente tinha um dom de retratar a sociedade da época e de criar personagens cativantes, bons e verdadeiros, apesar de suas falhas, não me admira que tenha sido tão estimada em seu tempo e seja até hoje, eu mesma não pude evitar e reconhecer que, após esta linda obra, ela figura entre as minhas autoras favoritas.

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Esposas e Filhas é um livro adorável, melancólico em certos momentos, porém certamente divertido em sua maior parte e de uma beleza singela que encanta qualquer tipo de leitor, por isso, recomendo bastante.

“É correto esperar o melhor de todos e não o pior. Parece que é evidente, mas isso tem me servido até agora, e algum dia será útil. Devemos sempre tentar pensar mais nos outros do que em nós mesmos, e é melhor não pré-julgar as pessoas pelo seu lado ruim.”

Tradução: Ellen Bussaglia.
Ilustrações: George Du Maurier
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Veja mais obras de Elizabeth Gaskell já lançadas pela Pedrazul Editora:
Cranford
Margaret Hale / Norte e Sul
O Chalé de Moorland e Lizzie Leigh
O Chalé de Moorland (eBook)
Lizzie Leigh (eBook)

Veja também a continuação de Norte e Sul escrita por Trudy Brasure:
Um Coração Para Milton
Um Coração Para Milton (eBook)

 

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