TESS DOS D’URBERVILLES – THOMAS HARDY

Uma Mulher Pura
Quando um grande autor, tem que a sorte de encontrar um grande tema, o resultado é uma obra grandiosa! Assim é Tess dos D’Urbervilles.

Nossos impulsos são mais fortes que a razão, às vezes.”  (Cap. I)

 Tess é um livro pungente! Antes de dar início a resenha em si, vale destacar que eu não queria lê-lo exatamente por causa disso. Mas valeu cada página lida! Thomas Hardy era um homem com grande capacidade mental, razão pela qual é conhecido como um dos mais capacitados escritores de todas as épocas, e Tess é a prova disso.

O livro tem início com uma sacada incrível de Hardy. Um impulso de um pároco que, se tivesse se calado, toda a história pararia em seu silêncio, mas ele ousou falar, e, com isso, girou uma roda que mudou a vida de muitas pessoas.

O pobre e bêbado Jack Durbeyfield, o pai da doce Tess, estava indo para casa quando se depara com o pároco de Tringham que o cumprimenta como Sir John. Intrigado com isso, pois era a segunda vez que o clérigo o chamava de Sir, ele o indaga no dialeto local: “Discurpa, sinhô. Mas a gente se encontrô no úrtimo dia de feira nesta mesma estrada, mais ou meno no mesmo horário, e eu disse “Boa noite”, e o sinhô respondeu “Boa noite, Sir John”, iguarzinho agora […] “Posso sabê pru que me chamô de ‘Sir John’ todas essas veis, se apenas Jack Durbeyfield, o mascate?”

Foi aqui que a jornada de Tess teve início. Jack Durbeyfield, ao tomar conhecimento que ele descendia da nobre família d’Urberville, formada por nobres descendentes de Sir Pagan d’Urberville, que veio da Normandia com Guilherme, o Conquistador, ele ficou atônito e tomou a seguinte resolução: se ele era o único descendente de várias gerações de Sir Johns, com título de fidalguia hereditário, de agora para frente ele seria Sir John! Naquela mesma noite o bêbado mascate voltou para a taberna e foi comemorar a incrível descoberta: ele era um nobre! “E eu aqui, perambulando sem rumo, um ano atrás do outro, de um lugá pra outro, como se fosse um quarqué…”, disse Jack Durbeyfield.  Ele ainda ficou sabendo que em Kingsbere-sub-Greenhill, fileiras e mais fileiras de nobres d’Urberville repousavam em criptas com suas efigies em mausoléus de mármore.

Poucos dias depois, Mrs. Joan Durbeyfield, a mãe de Tess, descobriu que havia uma rica senhora com o sobrenome d’Urberville morando em Trantridge e Tess foi coagida a procurar a mulher para falar de tal parentesco. “Sabia que há uma Mrs. d’Urberville muito rica vivendo nos arredor de The Chase e que deve ser nossa parenta? Deve ir até ela e reclamá seu parentesco, e pedir ajuda em nosso momento de dificuldade”, disse Joan. Tess não queria ir. Ela havia estudado até a sexta série e, embora pouco para hoje, para a época e o local, era muito e ela era bastante inteligente. Ao contrário de seus pais, ignorantes e interesseiros, Tess tinha uma boa noção das coisas e tinha boa índole. Mas, como ela se sentia responsável pela morte do único cavalo da família, dessa forma, tirando o sustento dos pais e dos irmãos, ela se culpava e não teve alternativa senão ir procurar a tal dama d’Urberville rica:

“Nessa manhã memorável, a rota de Tess Durbeyfield passava pelas ondulações nordestinas de seu vale natal, o Vale de Blackmoor, onde sua vida desabrochara. Dos portões e degraus de Marlott, fitara o vale em seus imaginativos dias de infância, e o que antes fora misterioso não era menos agora. Vira de seu quarto, diariamente, torres, vilarejos, alvas mansões longínquas; sobretudo, a cidade de Shaston, majestosamente alta, com suas janelas como lamparinas no sol da tarde. Fora do vale, então, nada conhecia.”

Tess então desceu do coche em Trantridge Cross e subiu a pé a colina na direção do distrito conhecido como The Chase, uma floresta antiga localizada a sul e a leste de Shaston, em direção a The Slopes, a propriedade da tal Mrs. d’Urberville. Lá ela foi recebida pelo seu “primo”, Alec d’Urberville, um rapaz mau, que gostou dela imediatamente. Tess ficou trabalhando na propriedade de Alec d’Urberville, para sua cega e inválida mãe, cuidando das galinhas da estranha e excêntrica mulher. Na verdade, esses d’Urbervilles não eram os originais descendentes dos franceses normandos. O pai de Alec, Mr. Simon Stoke, já falecido, fizera fortuna como um honesto comerciante (alguns diriam agiota) no Norte da Inglaterra, e decidira estabelecer-se como um homem do campo no Sul, longe do clima de seu distrito comercial. Ao fazê-lo, sentiu a necessidade de recomeçar com um nome que não o identificasse tão imediatamente como o esperto comerciante; um nome que fosse menos comum. No Museu Britânico ele descobrira, estudando as páginas das nobres extintas famílias, o nome d’Urberville. Considerou que aparentava e soava tão bem e d’Urberville foi, assim, anexado ao seu próprio nome, para ele e para seus descendentes, eternamente.

Na mansão The Chase, onde Tess era uma simples empregada como outra qualquer, porém, a mais bela, tem início o seu martírio, com a obsessão de Alec d’Urberville por ela, o que mudaria toda a sua vida. Daqui para frente, a jornada de Tess e seu amor por Angel Claire – filho do bom e honesto reverendo Mr. Clare, de Emminster, um jovem contestador, que não acreditava na mesma fé do pai e, portanto, não seguiu carreira como pároco, como seus outros dois irmãos – é linda, triste, mas enriquecedora.

Que livro! Não dá para falar mais de Tess sem soltar spoilers. Portanto, vamos falar de Angel Claire!

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“Abençoada seja sua inocência, Tess!” (Cap. II)

Uma parte que eu amo é o período em que Tess viveu na vacaria perto de Weatherbury, em Talbothays, o Vale das Grandes Vacarias, no qual “leite e manteiga transformavam-se em riqueza, a campina verdejante era tão bem irrigada pelo rio Var ou Froom.” Lá ela reviu Angel Clare, “que surge do passado”, pois Tess já havia visto Angel, dois ou três anos antes, numa breve aparição dele no baile de Marlott. Na época, ela tinha gostado dele, mas ele não a notara.

“E assim como cada uma e todas eram aquecidas pelo calor do sol, cada uma possuía seu sol particular para deleite da alma: algum sonho, alguma paixão, algum passatempo, uma esperança distante e remota que, mesmo sufocada, sobrevivia, como costuma sobreviver a esperança.” (Cap. II)

Portanto, encontramos Angel Clare, aos vinte e seis anos, em Talbothays, como um estudante de vacas leiteiras. E, com não havia casas próximas em que pudesse obter alojamento confortável, tornara-se um inquilino do leiteiro. Ele e Tess ficaram amigos; ele se encantou com a beleza e a doçura dela, e se apaixonaram perdidamente, mas ela nada contou de seu passado.

“A beleza ou feiura de um caráter não está apenas em seus feitos, mas em suas intenções e impulsos; sua verdadeira história não se encontra naquilo que realiza, mas naquilo que sonha.” (Cap. XLIX)

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Angel fora para Talbothays para ficar por seis meses, como aprendiz, depois de passar por outras fazendas. Seu objetivo era adquirir a habilidade prática nos vários processos da administração de uma fazenda, com o fim de tentar a vida nas Colônias. Há uma parte do livro que se passa no Brasil, quando Angel veio para cá em busca de oportunidades. Sua entrada no ramo da agricultura e da criação de gado, contudo, não fora um passo antecipado por ele ou por outros. Como ele não queria ser pároco, decidiu ser fazendeiro.

Na vacaria ele e Tess tomaram uma decisão que, mais uma vez, dará um novo norte à vida de Tess, e de Angel.

“E era o toque de imperfeição sobre a quase perfeição que lhe conferia a doçura, pois era aquilo que lhe dava sua humanidade.” (Cap. XXIV)

Tess é um livro extremamente rico. A jornada dessa linda jovem, suas vicissitudes, seu amor por Angel Claire, suas decepções, dores, nos ensinam muito. Thomas Hardy era um homem muito culto, portanto, Tess é uma escola de vida. Se triste ou feliz, não importa, o que de fato conta é que a história jamais vai se apagar de nossa mente e as lições sobre escolhas, ou não; destino, ou seria consequências?, ficarão para sempre! Jamais deixe de lê-lo porque lhe disseram que é uma obra triste. Tess é uma obra-prima grandiosa, é tão profunda que está acima de qualquer pormenor.

Assim operam o fluxo e o refluxo – o ritmo da mudança, que se alterna e persiste em todas as coisas sob o céu. (Cap. L)

A tradução de Luana Musmanno
Resenha de Chirlei Wandekoken

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Veja também outras obras de Thomas Hardy:
Longe Deste Insensato Mundo
O Retorno do Nativo

Evelina – Frances Burney

Evelina

Evelina é um romance doce que contém personagens da pequena nobreza inglesa, Lordes e Ladies, e que foi escrito por uma autora que conviveu com eles. Frances Burney, ou Fanny Burney, frequentava o palácio na época da rainha Charlotte e atuou como guarda das vestes da monarca, portanto, ela mostra com propriedade como era àquela época, um belíssimo retrato da Inglaterra do século XVIII.

Um pouco de História antes da resenha!

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Os romances clássicos são aulas inteiras de História sobre um período, um povo e sua cultura. Evelina, além de uma obra encantadoramente atraente, mostra com clareza (de quem frequentou a corte inglesa e também conviveu com os pobres, pois o pai da autora era um músico), as três grandes categorias de status social da época. Na era Georgiana (em outras épocas também) não era o nível de renda que mais importava, mas a classificação social da pessoa. As fileiras superiores eram geralmente chamadas de pequena nobreza, famílias com gigantescas propriedades rurais das quais retiravam muito dinheiro, contando que não tivessem que trabalhar na terra. Uma profissão adequada à pequena nobreza (para os filhos não primogênitos, pois o primeiro filho homem herdava o título e as terras) era cargos no governo. O alto escalão do clero, os militares e os funcionários civis vinham da nobreza e eram chamados de ‘Sir’. Os herdeiros (primogênitos) eram os ‘pares do reino’: duques, marqueses, condes e viscondes. Eram estes os que se sentavam na Câmera dos Lordes por direito hereditário. Existiam, ainda, títulos por serviço à coroa. A maior honra concedida pelo Rei era um baronato, que também era um título hereditário e, abaixo deste, o cavaleiro. Todos os outros nobres eram intitulados de escudeiros ou simplesmente cavalheiro. Já no início do século XVIII, o título de cavalheiro era dado (informalmente) aos homens ricos de fora da pequena nobreza, principalmente comerciantes, para distingui-los do pobre comum.

O segundo lugar na categoria social seria “o tipo mediano”. E eram os comerciantes. Estas pessoas ganharam dinheiro trabalhando. Muitos eram mais ricos do que muitos na pequena nobreza, mas o seu estado era menor. No inverno a pequena nobreza e os ricos se reuniam em Londres. Frances Burney retratou isso muito bem em Evelina. Era a conhecida ‘alta temporada’: as socializações nos clubes, parques e moradias ao redor de Westminster; as óperas, o teatro, os grandes e pequenos bailes. O restante do ano era passado nas grandes propriedades rurais ou em algum balneário da moda, como Bath, onde as águas minerais eram consideradas restauradoras. Os filhos homens da pequena nobreza tipicamente estudavam em Oxford ou Cambridge depois de terem sido educados em casa. Como já mencionado, o mais velho do sexo masculino era o herdeiro da fortuna e do título. Os filhos mais jovens da pequena nobreza eram preparados para participar do clero (ser um pároco), ou um militar ou funcionário público. As filhas eram educadas para se casarem com homens elegíveis a partir da pequena nobreza, e, para muitas famílias era a esperança de elevarem suas fortunas. Filhas não herdavam nada, portanto, o casamento, além de ser uma aliança estratégica era a única forma de dignidade para não depender da caridade de um parente (era raro uma mulher ter sua própria renda). As profissões que atualmente têm status, como: advogados, médicos, naquela época, não tinham o status social de hoje. Advogados eram muitas vezes ridicularizados como predadores, enquanto os médicos (provavelmente com razão) eram frequentemente denunciados como charlatões. Em 1745 foi feita uma distinção oficial entre médicos e barbeiros. As classes mais baixas também tinham divisões. No topo desta categoria estavam os artesãos que fabricavam sapatos, roupas, móveis, navios, metais e outros bens em suas oficinas, juntamente com seus oficiais e aprendizes. Tudo isso está retratado em Evelina, de Burney. Depois vinham os pescadores dos navios mercantes, mas a maior parta da população, contudo, na casa de centenas de milhares, estava no campo, no trabalho agrícola e no serviço doméstico. O primeiro era essencialmente uma ocupação de macho, enquanto o segundo da fêmea. Havia ainda uma subclasse não trabalhadora: os indigentes e vagabundos. No século XVIII a pobreza era generalizada, especialmente quando as colheitas eram fracas e os preços dos alimentos subiam.  Burney que nasceu em 1752 e viveu até 1840, frequentou a corte, viajou e viveu no estrangeiro. Portanto, tinha conhecimento de sobra para nos presentear com um clássico com enorme peso histórico. Não é acaso que Evelina é leitura obrigatória das escolas e universidades londrinas. Virginia Woolf descreveu Frances Burney como a mãe da literatura inglesa.

AGORA A RESENHA!

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A edição da Pedrazul é ilustrada originalmente por Hugh Thomson.

Evelina é uma mocinha de pouco mais de 17 anos, órfã de mãe e não reconhecida pelo pai, que vive situações constrangedoras em Londres, onde é levada a confrontar seus medos, seu passado, e a conhecer o amor. Criada no campo, em Berry Hill, em Dorsetshire, no interior da Inglaterra, num doce e forçado exílio, a única companhia de Evelina era a do idoso e bondoso Mr. Villars, um pároco que a tem como filha.

Este clérigo, contudo, mantinha boas relações com Lady Howard, de Kent. Através dessa amizade, Evelina foi convidada a passar uns meses na mansão de Howard Grove e depois acompanhar a filha e a neta de Lady Howard, Mrs. e Miss Mirvan, a Londres, por um período de três meses: a famosa temporada londrina! Depois de certa hesitação, Mr. Villars deu permissão para a viagem, embora preocupado, pois Evelina era ingênua e insegura.

Uma moça interiorana, que conhece pela primeira vez a vida em sociedade, é de supor que se cometa alguns equívocos em relação à etiqueta. E foi o que ocorreu: Frances Burney usa seu humor, muito como Jane Austen, para criticar uma sociedade orientada pelo masculino, na qual as mulheres eram meramente objetos de prazer ou peões do destino. Em um baile, em Londres, Evelina não sabia que uma dama não podia se negar a dançar com um cavalheiro se este a convidasse. A não ser que já estivesse comprometida. O primeiro “janota” que veio tirá-la para dançar recebeu um “não”. Oh! Como isso o afetou! Em Londres, Evelina teve que aprender a conviver em harmonia com os vários tipos de pessoas que cruzaram o seu caminho e, especialmente, a lidar com comportamentos vulgares, violentos e até abusivos, como Sir Clement Willoughby, um nobre que ficou obsessivo ela beleza dela e que lhe causou muitos problemas.

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Sir Clement tenta violentar Evelina!

Porém, no mesmo baile de estreia, Evelina viu Lord Orville, um cavalheiro que parecia ter todos os predicados do termo. Ele a convidou para dançar; ela hesitou e disse que só havia dançado na escola, e com meninas. Lord Orville, educadamente, disse que era fácil e que lhe ensinaria. Ela foi, ficou toda envergonhada e não abriu a boca, as palavras lhe sumiram e ela foi taxada de “uma pobre garota do interior”, mais ou menos sem graça, sem expressão, apenas bonita por fora. Segundo pesquisadores, Jane Austen se inspirou em Lord Orville para criar Mr. Darcy. O trecho inicial quando Evelina e Lord Orville se conheceram, lembra totalmente o primeiro encontro entre Elizabeth e Mr. Darcy no baile em Meryton, ocasião em que Elizabeth ouve Mr. Darcy descrevê-la como “tolerável, mas não suficientemente bonita para me tentar”. Da mesma forma, uma amiga de Evelina ouve Lord Orville se referindo a ela, como: “Uma garota de aparência modesta, fraca, filha de um pároco do interior”. Mas à frente, num encontro entre Sir Clement e Lord Orville, o cavalheiro se refere a ela:  “O Senhor ficou feliz, meu Lord”, disse Sir Clement, “sobre a nossa primeira conversa concernindo àquela jovem dama […], o senhor disse que ela era uma pobre, fraca e ignorante garota e eu tinha razão para crer que o senhor possuísse uma opinião mais desdenhosa dela”.

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Lord Orville é lindo demais!

Como em Orgulho e Preconceito, de Austen, Evelina agiu como Elizabeth Bennet (na verdade foi o contrário, pois Evelina foi publicado em 1778 e Orgulho e Preconceito, em 1813), se sentiu envergonhada de seu estado obscuro e de suas relações vulgares.

Evelina é um romance extenso, lindo, cheio de reviravoltas, surpresas incríveis e, certamente, influenciou Jane Austen na criação de vários personagens posteriormente, como Mr. Darcy, como já mencionamos. Catherine Morland, de A Abadia de Northanger, também tem muito de Evelina. Lady Louisa, a irmã de Lord Orville, é igualzinha a irmã de Mr. Bingley, e muitos outros.

Concluindo: se você gostou de Orgulho e Preconceito, de Austen, vai amar Evelina, de Burney!

SOBRE A CAPA DA EDIÇÃO DA PEDRAZUL!

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A Pedrazul nunca economiza em marcadores!

Frances Burney era amiga do artista John Hoppner (1758-1810) e, embora a primeira edição de Evelina tenha sido lançada de forma anônima, em  1780, Hoppner sabia de quem era a autoria da obra pela qual se apaixonou. Portanto, saiu à procura de uma desconhecida que fosse tão bela quanto à sua heroína, encontrando-a fez a pintura que é a capa da edição da Pedrazul, chamada “Retrato de uma Senhora como Evelina”.

SOBRE A AUTORA

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Frances Burney, ou Fanny Burney, pintada por Edward Francis Burney.

Frances ‘Fanny’ Burney (1752-1840) foi uma das romancistas inglesas mais populares do final do século XVIII. Precursora de romances que retratam a simples vida doméstica, Burney teve forte influência sobre Jane Austen, Mary Edgeworth, autora de Belinda; e William Thackeray. Seu talento para contar histórias, sua capacidade, sua abundância de personagens, somente foram superados por Charles Dickens. Ela também foi uma importante diarista e cronista dos costumes ingleses sobre moral e sociedade. Filha de Charles Burney, um ilustre historiador da música, a autora se tornou popular com a publicação de ‘Evelina’. Embora ela tivesse começado a compor a obra em 1767, somente a publicou em 1778, de forma anônima. Burney também publicou outros romances: ‘Cecilia’ ou ‘Memórias de Uma Herdeira’, em 1782, e ‘Camilla’ ou ‘Um Retrato da Juventude’, em 1796, ambos citados por Jane Austen em ‘A Abadia de Northanger’. Em ‘Evelina’, Burney expõe tanto a vaidade como a afetação da alta classe londrina, como também a vulgaridade e a falta de sentimento. É um romance que mostra a inteligência da autora, o conhecimento da sociedade inglesa e sua versatilidade técnica. Burney também conviveu na corte inglesa e no período de 1787 a 1791 atuou como guarda das vestes da rainha Charlotte. Em 1793, ela se casou com o general d’Arblay, um refugiado francês, com quem viveu na França de 1802 a 1812.

A edição de Evelina é ilustrada originalmente por Hugh Thomson. Tradução de Gabriela Alcoforado. A mesma tradutora de Margaret Hale, de Elizabeth Gaskell.
Texto de Chirlei Wandekoken.

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A imagem principal é do blog Nuvem Literária

Margaret Hale / Norte e Sul – Elizabeth Gaskell

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Um romance para fazer vibrar o mais duro coração!

Olhando rapidamente o que se apresenta sobre a obra por aí, um leitor desavisado poderia imaginar que Margaret Hale se trata de um conflito da mocinha inglesa sulista com o mocinho do norte. Mas, antes de iniciar esta resenha, vale ressaltar que o título original dessa obra era Margaret Hale e que Norte e Sul foi imposto por Charles Dickens, o editor da revista Household Words, na qual o romance foi apresentado ao público inglês, em 20 episódios semanais, de 1854 a 1855. Não que Dickens, a velha raposa literária, não tivesse bom faro para títulos: lógico que ele tinha. Entretanto, a obra mais conhecida de Gaskell não retrata apenas essa diferença entre o idílico sul inglês – representado pela vila de Helstone, no qual as famílias aristocratas residiam – com o árduo norte, representado pelo trabalho duro, na forma de Manchester (chamado no livro de Milton), a cidade em que a autora se mudou quando se casou.

O livro traz as aspirações da filha de um pároco anglicano do interior que, após viver em Londres e ser educada pela sua tia, Mrs. Shaw, sonha em retornar ao lar, local de lindas lembranças e precoce nostalgia. Mas, quando chega a hora do regresso, Margaret é tomada por uma surpresa: o pai estava na eminência de abandonar o celibato por questões de consciência. Essa “questão de consciência” não fica clara no livro, mas supomos que seja o mesmo que ocorreu com o próprio pai da autora. Questões conflituosas ligadas aos cânones da igreja Anglicana. Por causa desse desligamento do anglicanismo (e não da fé, como Mr. Hale frisa), a família tinha que sair do presbitério, casa onde os Hales sempre tinham residido, em Helstone; mudar de profissão àquela altura da vida; e buscar o próprio sustento sem a proteção da igreja. Lembrando que um pároco, um clérigo anglicano, geralmente era o segundo filho de uma família inglesa de nobres ou aristocratas. O título e as posses ficavam com o primogênito, e o segundo filho deveria ganhar seu sustento. O normal era se tornar pároco, ou um militar graduado (comprava-se uma patente). Os clérigos eram homens cultos e, portanto, geralmente se casavam com uma dama de família rica. A família da mãe de Margaret era uma família aristocrata. Mas, pela filha ter escolhido se casar com o “pobre” homem da fé, a família a tinha criticado.

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Margaret, então, se depara com essa mudança drástica de vida, pois a família se mudou do Sul para o Norte, onde o pai foi tentar ganhar a vida como professor, uma posição muito aquém do que a mãe de Margaret estava habituada, sem o glamour, pois ser pároco tinha seu prestígio. Todo esse sofrimento leva Mrs. Hale a um estado depressivo e ela adoece gravemente.

Neste contexto entra na história, Mr. Thornton, um rico industrial de Milton e o pupilo (aluno) preferido de Mr. Hale. Enquanto John Thornton, com a ajuda de seu mestre, descobre os meandros dos clássicos e o conhecimento que vem com a leitura de Platão e outros filósofos pensadores, o industrial se dobra de paixão pela moça do Sul. Entretanto, a mente de Margaret ainda está presa às lamentações do que havia deixado para trás; à doçura do idílio sul, à doença da mãe, aos problemas da casa, testemunhando um mundo duro e brutal, forjado pela revolução industrial de Milton, com suas fábricas soltando fumaça e deixando o ar lúgubre. Chocada com tantas diferenças, pois em Londres eles viviam em meio à aristocracia, ela ainda não tinha se despertado para o amor. Lembrando que Mr. Thornton era bem mais velho que ela. No livro Margaret é ainda uma jovenzinha de cerca de 18 anos. Thornton, entretanto, é um homem vivido, embora ainda jovem, ele havia tido uma infância triste, em que o pai falido colocara sua família numa situação terrível, uma tragédia mesmo, e ele, com a ajuda de sua mãe, a rígida e forte Mrs. Thornton, havia superado e erguido um império. Margaret não: era ainda uma jovenzinha que dava início à sua jornada na vida; tinha muito o que aprender, sofrer, pois o sofrimento ‘desenvolve’ as pessoas, tornando-as melhores. Gaskell sabia disso e na obra ela traça esse caminho. No início Margaret era, em minha opinião, uma pessoa, embora boa, rasa. Era cheia de preconceitos, a cara da aristocracia inglesa vitoriana, que achava que o trabalho não enobrecia.

Mas, à medida que ela começa a descobrir Milton, seus habitantes, o funcionamento das fábricas e as relações entre patrões e operários, ela se deixa envolver pela cidade e nos seus olhos já não há mais o filtro do preconceito. Margaret faz amizade com Bessy, a filha de Nichols, representante do sindicato local, e com esta amizade passa a conviver com os operários dos moinhos e descobre como são suas vidas. E conhecendo esse mundo de miséria, fome e sofrimento, e ouvindo as conversas de Thornton com seu pai (visão dos industriais locais), aguça seu interesse por entender a relação patrão empregado, a economia e o porquê do pouco caso dos industriais para com seus empregados. Numa arriscada ousadia, ela coloca Mr. Thornton em perigo e, ao defendê-lo, é agredida por grevistas furiosos.

Em pleno século XIX, Elizabeth Gaskell já sabia que a busca do amor nem sempre leva a um caminho reto; às vezes é tão tortuoso como os melindres da mente mais errante; que o amado tem a desfaçatez de depreciar quem o ama, e apenas se descobre amando quando já não há mais a quem se amar. Foi assim em Margaret Hale. Quando ela acreditou que havia decepcionado John Thornton, que ele a julgava mal por um mal-entendido ligado ao um irmão foragido na Espanha, segredo que ela não podia contar, ela se despertou para o amor. Entretanto, já era um pouco tarde.

À busca de Margaret pelo amor de Thornton, ou o encontro da heroína sulista com o industrial do norte, é um lindo conto de amor.

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Como mencionei no início, Gaskell teria preferido chamar o romance de Margaret Hale, nome da heroína, como ela havia feito, em 1848, com Mary Barton, mas a vontade de Dickens prevaleceu, e ele foi lançado como Norte e Sul. Numa carta datada de 26 de julho de 1854, Dickens disse a ela que o título Norte Sul parecia melhor. Quando trabalhava nos capítulos finais do romance, na casa da família perto de Matlock, em Derbyshire, ela escreveu que ela preferia chamar seu romance ‘Death and Variations’, porque na obra havia cinco mortos, cada uma maravilhosamente coerente com a personalidade do indivíduo“. Esta observação, provavelmente uma piada, enfatiza o papel importante da morte no desenrolar da história. A morte de Mrs. Hale afeta Margaret profundamente e, gradualmente, a encoraja à independência, permitindo a Gaskell analisar as profundas emoções de sua personagem feminina e concentrar-se na dureza do sistema social através das demais mortes. Loreau e Mrs. H. de Lespine, com a autorização da autora, traduziu a obra para o francês, depois da edição revisada, e a publicou em Paris pela Hachette, em 1859, sob o título de Marguerite Hale (Nord et Sud). A Pedrazul, numa tradução de Gabriela Alcoforado, também optou pelo título original, Margareth Hale, como a edição francesa. Entretanto, para agradar aos leitores, fez uma edição com duas capas.

Este romance sempre será um dos meus favoritos, junto com Esposas e Filhas, também da autora! Um livro cinco estrelas!

Tradução de Gabriela Alcoforado.

Resenha de Chirlei Wandekoken.
Colaboração de Marcia Belloube.

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Veja mais obras de Elizabeth Gaskell já lançadas pela Pedrazul Editora:
Esposas e Filhas
Cranford
O Chalé de Moorland e Lizzie Leigh
O Chalé de Moorland (eBook)
Lizzie Leigh (eBook)

Veja também a continuação de Norte e Sul escrita por Trudy Brasure:
Um Coração Para Milton
Um Coração Para Milton (eBook)

Os Mistérios de Udolpho – Ann Radcliffe

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Publicado em 1794, foi o quarto romance de Radcliffe. Considerado gótico por excelência, com seu castelo assombrado, uma atmosfera carregada de terror psicológico e recheada de eventos sobrenaturais.

Emily St. Aubert vive com seus pais na França, cercada pela natureza e pela segurança de uma família feliz, no idílico castelo de La Valée. Porém, uma doença fatal acomete sua mãe e ela morre. Ela e Monsieur St. Aubert viajam pelo sul da França à procura de paz e consolo, onde conhecem Valancourt, um cavalheiro honrado, irmão de um conde, que ganha a amizade de seu pai e o amor da jovem. Pouco tempo depois, Monsieur St. Aubert também morre deixando-a totalmente sozinha no mundo, à mercê de Madame Cheron, sua tia frívola e gananciosa.  Antes de morrer, porém, o pai a faz prometer que queimaria uns papéis que se encontravam muito bem escondidos em La Valée e que, possivelmente, tinham alguma ligação com a relação obscura de St. Aubert com a falecida marquesa de Villeroi.

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Ilustração do Volume I.

Madame Cheron casa-se com o criminoso italiano  Montoni, pois em sua ganância achava que ele fosse um rico nobre europeu, e este, que passa a ser tutor legal de Emily, proíbe seu casamento com Valancourt, pois espera fazer melhor negócio com ela, casando-a com um nobre italiano, o Conde Morano, cujas conexões muito o interessavam.

Montoni, dessa forma, as obriga a ir com ele para a Itália em direção ao intrigante e macabro Castelo de Udolpho, local sombrio e misterioso onde Emily fica encarcerada, sofrendo terrores sobrenaturais, maquinações e toda sorte de investidas de cavalheiros suspeitos com os quais  Montoni se relacionava. Separado de Emily, Valancourt, vai para a guerra e, ingênuo, é levado por amigos a se envolver com jogos e mulheres, em Paris.  O honrado cavalheiro que ela conheceu em uma viagem para a Suíça, agora não é mais puro e não tem mais esperanças de casar-se com ela.

Indícios da misteriosa relação entre o pai da órfã e a Marquesa de Villeroi estão cada vez mais fortes e há alguma ligação com o soturno Castelo de Udolpho. Madame Cheron – agora Madame Montoni – é chantageada por seu marido que deseja roubar sua herança – aquela que um dia será de Emily. Como ela se nega terminantemente a assinar os papéis que seriam a sua ruína, e de sua sobrinha, ela é trancada na parte leste do castelo sem comida e água e Emily não sabe se sua tia ainda está viva ou morta.

Quando Emily consegue escapar do sinistro castelo de Udolpho, com a ajuda da ama Annette, e de Ludovico, a amor de Annette, seu barco naufraga no litoral francês, e ela é resgatada pelo Conde de Villefort e conhece Lady Blanche, a filha do nobre que herdou a propriedade do Marquês de Villeroi, situada perto do monastério de Santa Clara, em Languedoc, na França. Através dele, Emily toma conhecimento de segredos envolvendo Valancourt.

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Ilustração do Volume II.

No também assombrado Chateau-le-Blanc, Emily percebe a assustadora semelhança entre ela própria e a Marquesa de Villeroi, o que a leva a desconfiar de uma estreita ligação entre seu pai e a misteriosa Lady.
Documentos, que Monsieur St. Aubert havia mandado queimar, poderiam revelar o passado da marquesa e de Lady Laurentini, aquela que tanto havia impressionado Emily pelo seu misterioso desaparecimento de Udolpho; a aparição sob o véu negro, segredos guardados há anos. Em meio a tudo isso, a volta de Valancourt e o retorno a La Valée.

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O livro é nostálgico, embora com trechos de terror, não me atemorizou, pois os terrores não eram sobrenaturais. Prende o leitor que quer saber o porquê de cada segredo e há muitos. Emily não era fraca e desmaiava o tempo todo, como era comum às heroínas daquela época, na verdade ela era muito forte. Quando Annette, a sua ama, ficava desesperada por causa dos terrores, ela mantinha a calma. Valancourt é o protótipo do Lord: educado, inteligente e cavalheiro. Impossível não se apaixonar por ele. O livro traz muitos personagens secundários incríveis. Trata-se de uma obra imensa, cheia de reviravoltas, com personagens complexos, densos, leves, profundos, engraçados e intricados: um deles, com certeza, vai te cativar. Eu amei a Annette, a ama de Emily. Ela rouba a cena em diversos trechos. Até Ludovico, outro serviçal, tem sua quota de importância.  Radcliffe deve ter levado muito tempo para compor Os Mistérios de Udolpho, pois é uma obra muito bem pensada!

Citado por Jane Austen, em A Abadia de Northanger, Os Mistérios de Udolpho obteve sucesso junto ao público e à crítica, e Ann Radcliffe foi louvada como a rainha do romance gótico e uma pioneira do movimento romântico.

ilustração de Os Mistérios de Udolpho

A edição da Pedrazul possui dois volumes. Trata-se de um romance envolvente, com muitas paisagens descritas detalhadamente pela autora, uma viagem pela Europa, passando pelos Pireneus, uma cordilheira no sudoeste da Europa, cujos montes formam uma fronteira natural entre Espanha e França e estendem-se por aproximadamente 430 km. No livro, os personagens, Monsieur St. Aubert, Emily e Valancourt passam, em comitiva, nas localidades nos arredores dos Pirineus. O interessante é que Radcliffe nunca esteve em nenhum dos locais em que descreve com uma precisão em sua obra. Mas autora era apaixonada por revistas de viagens, bem popular na Inglaterra do século XVIII.

Emily St. Aubert também se hospeda em Toulouse, cidade medieval francesa, cortada pelo rio Garonne. Toulouse é chamada de cidade rosa, pois é quase toda construída com tijolos, cuja matéria-prima é extraída da argila do rio Garonne que corta a linda cidade. Até hoje ainda existem construções medievais, muitas delas citadas na obra de Radcliffe. Os edifícios mais característicos são as mansões que foram construídas por ricos comerciantes e nobres da cidade durante os séculos 16 e 17. Mais de 50 destes casarões ainda sobrevivem, como o  Hôtel d’ Assézat.

Languedoc  também é citado por Radcliffe como o local onde Emily St. Aubert conhece Lady Blanche, a filha do Conde de Villefort. Languedoc  é uma região ao Sul da França, que tem como limite também o rio Garona, que nasce nos Pirineus.

No volume II de sua obra, Radcliffe cita o Chateau-le-Blanc, um castelo mal-assombrado no qual Emily percebe a assustadora semelhança entre ela e a Marquesa de Villeroi. Atualmente, Chateau-le-Blanc é um castelo francês situado em Libourne, no sudoeste da França, grande produtor do vinho Bordeaux Saint-Émilion.

“Uma mente bem informada é a melhor garantia contra o contágio da loucura e do vício. A mente vazia está sempre pronta para o alívio, para mergulhar no erro e escapar da languidez e da preguiça. Armazená-la com ideias, ensiná-la o prazer de pensar, a livrará das tentações, que serão neutralizadas pelas gratificações derivadas do mundo interior”, trecho de Os Mistérios de Udopho.

Tradução de Bianca Costa Sales.
Resenha de Chirlei Wandekoken.

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O Chalé de Moorland – Elizabeth Gaskell

O Chalé de Moorland de Elizabeth Gaskell

Lançando originalmente, em 1850, como Moorland Cottage, o livro narra a história dos irmãos Maggie e Edward Browne, completamente diferentes entre si: Maggie é doce e boa; Edward é egoísta e mau. Filhos do falecido pároco de Combehurst, os irmãos moram com a mãe numa casa na charneca inglesa que dá título à obra. A gentil Maggie é extremamente devotada a Edward, que é arrogante e a subjuga. Protegido pela mãe, Edward a explora e cresce um rapaz com valores distorcidos.  Ainda assim sua mãe o prefere a Maggie.

O Chalé de Moorland, que foi lançado em 1850, me lembrou muito The Mill on The Floss, lançado em 1860, por George Eliot, embora The Mill on The Floss seja um livro autobiográfico de Mary Ann Evans (George Eliot), inspirado na relação da autora com seu irmão Isaque. O que comprova que a vida, de fato, imita a arte. Mas os livros têm enredos muito similares.  Até as personagens têm o mesmo nome, a de Gaskell é Maggie Browne, e a de Eliot, Maggie Tulliver.

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Bem, a nossa Maggie Browne vive com seu irmão, Edward; com uma empregada chamada, Nancy, uma mulher doce e sensata, que é como uma mãe para Maggie. A mãe de Maggie é ausente, uma matrona de coração frio, que, após a morte do marido, adotou para sempre o luto.

Certa vez a família Browne é convidada para passar o dia na casa do aristocrata Mr. Buxton, pois este fora amigo do pai de Maggie no passado. Mr. Buxton é casado com uma inválida, Mrs. Buxton, que se afeiçoa imediatamente a Maggie. Seu filho, Frank e a sobrinha Erminia, também logo se tornam amigos da subjugada Maggie. Mas Maggie, embora pobre e tímida, é bonita e inteligente, e logo desperta a atenção de Frank, que se apaixona por ela e ela por ele. Entretanto, Mr. Buxton espera que Frank se case com a herdeira Erminia e isso vai gerar um problema na trama.

Edward se torna advogado com a ajuda de Mr. Buxton, pois este, por motivo não esclarecido pela autora, se sentia meio responsável pela família. Logo Edward começou a cuidar de toda fortuna do cavalheiro, que tinha total confiança em seu jovem advogado e pupilo.

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Após a morte de Mrs. Buxton, Frank pede Maggie em casamento, mas Edward rouba Mr. Buxton, tornando essa união impossível. Com a fuga de Edward para os Estados Unidos, Maggie é envolvida, e somente Frank pode salvá-la.

Na edição de O Chalé de Moorland da Pedrazul, há um plus de outra pequena história de Elizabeth Gaskell: Lizzie Leigh. Um conto comovente sobre o amor ilícito e suas repercussões. A história de uma jovem garota chamada Lizzie que comete um pecado. Gaskell brilhantemente retrata as relações profundas e verdadeiras de uma família.

Tradução de Andrea Carvalho. A mesma tradutora de O Diário de Mr. Darcy, de Amanda Grange, e de A Pequena Dorrit, de Charles Dickens.

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Veja mais obras de Elizabeth Gaskell já lançadas pela Pedrazul Editora:
Cranford
Esposas e Filhas
Margaret Hale / Norte e Sul
Lizzie Leigh (eBook)

Veja também a continuação de Norte e Sul escrita por Trudy Brasure:
Um Coração Para Milton
Um Coração Para Milton (eBook)

Cranford – Elizabeth Gaskell

Cranford de Gaskell

Cranford é um romance que foi inspirado na cidadezinha que a autora passou a sua infância: Knutsford, em Cheshire, Inglaterra, onde Elizabeth Gaskell viveu com sua tia Hannah Lumb após a morte de sua mãe. É considerada uma obra autobiográfica.

Narrado em primeira pessoa por Miss Mary Smith, uma ex-moradora de Cranford, que volta à cidade para visitar seus amigos, portanto, ela tem uma visão abrangente do lugarejo, que é dominado por solteironas aristocratas, cuja monotonia é quebrada pela chegada de um novo morador. As Misses Matty e Deborah, duas irmãs solteironas de meia-idade, são as personagens principais. Elas são pobres, embora de família aristocrata, e se esforçam para viver com dignidade e jamais falam em dinheiro.

Com suas regras próprias, algumas hilárias, hábitos antiquados, onde ninguém está imune aos mexericos, Cranford é uma delícia de lugar!

Cranford de Gaskell

Publicado pela primeira vez de 1851 a 1853, em Londres, de forma seriada, como eram feitas as publicações no século XIX, a obra traz, basicamente, o cotidiano das mulheres solteironas e viúvas. De forma alguma pense que, pelo estado civil delas, fossem tristes, moribundas ou enfermiças,  muito pelo contrário. Miss Jenkyns e sua irmã Miss Matty Jenkyns, Miss Pole, Mrs. Jamieson, Mrs. Fitz-Adam e Mrs. Forrester eram muito felizes, saudáveis e otimistas, embora pequenas tragédias acometessem-nas de vez em quando, como o desaparecimento de Peter, o irmão das Misses Jenkyns, que foi para a Índia e nunca mais voltou ou deu notícia. Fato inspirado no irmão da própria autora.

Quando o capitão Brown e suas filhas, as Misses Brown e Jessie chegam a Cranford, a monotonia do lugar é quebrada e logo a família se torna o centro das conversações em todas as casas. Até porque um homem em Cranford era raridade! A família do capitão Brown trouxe vida nova à cidade, novos amores, uma energia calorosa e afetiva que foi capitada até pela solteirona Miss Matty, ou Matilda, que, por ironia do destino, volta ao tempo e tenta resgatar um amor do passado com Mr. Hollbook. Cranford é o tipo de romance que foge do comum: heroínas jovens, heróis à flor da idade, se vê o tempo todo por aí. Entretanto, em Cranford, é possível ser feliz quando se já passou na mocidade; quando muitos invernos batem à porta, e isso eu achei muito interessante. Em Cranford, mulheres e homens maduros encontram formas simples de seres felizes; se amam, se casam, se reinventam após uma falência, enfim, há vida após os 40 anos. Lógico, em Cranford os jovens também se amam e se casam, mas o foco não são os jovens!

É também uma cidade que inventou sua própria moda, seu estilo de vida, não importando se o guarda-chuva vermelho está fora de moda em Londres, ou se o vestido era do século passado, bastasse que a touca ou o chapéu estivessem na moda, e tudo estaria muito bem!

Cranford é uma obra que vai te fazer rir, chorar e aspirar por um futuro à sombra de uma árvore qualquer, com uma xícara de chá à mão. Lá uma vaca pode usar uma roupa, uma meia pode ser engolida por uma gata e voltar ao vestido da matrona.

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Nesta novela encantadora, Gaskell enreda o leitor com uma narrativa gostosa, irônica, bem ao estilo Jane Austen. Seus personagens, essencialmente carismáticos, quase instantaneamente, irão transportá-lo para a atmosfera bucólica de uma típica cidadezinha interiorana inglesa do século XIX, ouvido o repicar do sino da igrejinha, assistindo uma matinê de um mágico qualquer, tomando chá, ou simplesmente cochilando em frente à lareira. Por que não? E a vida segue feliz! Muito feliz! Pois a felicidade está na simplicidade! Cranford é a prova disso!

A edição da Pedrazul foi traduzida por Silvia M. C. Rezende e é ilustrada originalmente por Hugh Thomson.

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Entrevista com pesquisador Eric Ruijssenaars sobre as Irmãs Brontë

Irmãs Bronte

Charlotte Bronte

VILLETTE É A OBRA AUTOBIOGRÁFICA DE CHARLOTTE BRONTË”

O autor e pesquisador europeu Eric Ruijssenaars, 50 anos, que há mais de 25 anos ‘investiga’ a vida das irmãs Brontës, nos conta, em entrevista exclusiva, alguns segredos sobre a irmã mais velha das Brontës, Charlotte, e fala de sua tórrida paixão proibida pelo professor de Bruxelas, que a inspirou a criar Mr. Rochester, de Jane Eyre, e Paul Emanuel, de Villette. Ele afirma que Villette é uma obra totalmente autobiográfica e que o livro foi um ponto final no drama do amor não correspondido. “Em Villette a personagem Lucy Snowe, desesperada, entra numa igreja e se confessa com o padre Silas. Essa confissão é autobiográfica. O passeio que ela fez com Monsieur Paul Emanuel também foi real e a paixão de Lucy por ele, lógico, foi a paixão dela por Monsieur Constantin Heger, além de centenas de outros fatos”, disse Eric.

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Eric Ruijssenaars.

Ruijssenaars é autor de Charlotte Brontë’s Promised Land  e The Pensionnat Revisited. As descobertas de suas pesquisas e a polêmica relação entre a Charlotte Brontë e Monsieur Heger, um homem casado que foi seu professor durante a estadia dela em Bruxelas, estão descritas aqui:

Eric vive em Leiden, Holanda, uma cidadezinha magnífica que parece pertencer ao século XVII. É como Amsterdam, mas consideravelmente menor. Ele é acadêmico sênior do New Netherland Research Center, em Albany, Estado de Nova Iorque, fundador da Dutch Archives, especializada em pesquisas históricas, situada também em Leiden, e co-fundador do The Brussels Brontë Group, em 2005. Embora expert em Países Baixos e Companhia das Índias Ocidentais, história holandesa do século XVII, em geral, ele, há mais de 25 anos é um estudioso das irmãs Brontës.

Para pesquisar sobre elas, o autor viveu um período em Bruxelas, mergulhado na principal fonte de documentos arquivísticos sobre elas naquele período, 1842-1843, que, segundo ele, são os Arquivos de Bruxelles. Ruijssenaars destaca ainda os livros e os jornais antigos das Bibliotecas Reais, em Bruxelas e em Haia, e a Biblioteca da Universidade de Leiden, Holanda, como ricas fontes de pesquisa sobre o assunto. Contudo, o pesquisador, que também é grande fã das Brontës, não ficou somente na Bélgica e na Holanda, mas vagou pelo Brontë Parsonage Museum por várias vezes, em Haworth, percorreu por Thornton, Bradford, em Yorkshire; escrutou tudo sobre elas nos museus British Museum, Ghent Museum of Fine Arts e outros; viajou para os Estados Unidos atrás de informações, pois muitos americanos tinham visitado o pensionato Heger antes de ele ser demolido.

Portanto, se alguém pode falar com preciosidade sobre o período em que Charlotte e Emily viveram em Bruxelas, Ruijssenaars é uma dessas pessoas. Tudo o que o leitor queria saber sobre Charlotte Brontë e não tinha para quem perguntar, nós perguntamos e Ruijssenaars respondeu. Por que Ruijssenaars foi tão solícito conosco, não sabemos, talvez pelo fato de ele já ter feito pesquisa sobre os holandeses no Brasil (bendito sobrenome holandês!), em Pernambuco, uma colônia que, segundo ele, durou apenas cerca de 25 anos.

Como começou a se interessar pelas Brontës ao ponto de escrever dois livros sobre elas?

O meu interesse pelas Brontës em Bruxelas começou há 25 anos como uma tentativa de impressionar uma namorada por quem eu tinha caído de amor. Naquela época, ela era uma das poucas pessoas amantes de Villette, pois não havia, por parte dos fãs das Brontës, quase nenhum interesse por Villette e pelo tempo que as irmãs Brontës viveram em Bruxelas, ao contrário de agora. Bem, li o livro e me apaixonei pela personagem Lucy Snowe. Achei que a Bruxelas das Brontës fora ainda pouco pesquisada, então eu decidi fazê-lo eu mesmo. 

Você me disse que essa parte da vida das Brontës tinha sido negligenciada. Por quê? 

Eu sentia falta de um trabalho investigativo detalhado da vida das Brontës em Bruxelas, pois faltavam informações sobre esse período, sobre o que Charlotte e Emily fizeram por lá, isto é, o que sabíamos era muito fragmentado. Fui em busca de respostas e descobri os lugares nos arredores de Bruxelas, nos quais Charlotte se inspirou para escrever ‘Villette’ e ‘O Professor’. Também fiz um levantamento da vida cultural na cidade no período de 1842-1843, nos quais Charlotte também se inspirou em vários trechos da obra, incluindo a identificação das pinturas mencionadas em Villette, além, é lógico, de tudo que envolveu Monsieur Constantin Heger. Tudo isso revelou que Villette, de fato, é uma obra totalmente autobiográfica. 

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A família Heger, por Ange Francois.

Em Charlotte Brontë’s Promised Land e The Pensionnat Revisited você mostra a Bruxelas de Villette e o Pensionnat Heger, respectivamente, onde Charlotte encontrou sua paixão. Fale um pouco sobre suas obras.

O pensionnat Heger ficava na Rue d’ Isabelle. Infelizmente foi demolido, em 1910. Sobre meus livros, o primeiro foi lançado pela a Sociedade Brontë da Europa,  em 2000, e o segundo em 2003. Neles eu descrevo a Bruxelas das Brontës, como eram os lugares, e, uma coisa muito legal durante a pesquisa para o livro foi que eu encontrei uma dúzia de artigos antigos, escritos por pessoas que estavam no pensionnat antes de ele ser demolido. Estes escritos estão publicados na íntegra. Cerca de seis anos atrás, eu encontrei uma foto de uma das pinturas específicas que Charlotte menciona em Villette.

Villette é, de fato, a reprodução da vida de Charlotte Brontë? 

Sim, totalmente autobiográfico. Posso afirmar que Charlotte descreveu com precisão o antigo bairro onde ficava o pensionnat. Tem uma parte em Villette que Lucy Snowe, desesperada, entra numa igreja e se confessa com o padre Silas. Essa confissão é autobiográfica. No livro também ela vai ver uma exposição, no capítulo ‘Cleópatra’. Ela, de fato, foi para uma exposição de fotografias em Bruxelas. O passeio que ela fez com Monsieur Paul Emanuel também foi real e a paixão de Lucy por ele, lógico, foi a paixão dela por Monsieur Constantin Heger, além de centenas de outros fatos. 

Em sua opinião a paixão de Charlotte por Constantin foi correspondida? 

Recentemente uma escritora holandesa / belga, Jolien Janzing, publicou De Meester, um romance sobre isso (em holandês), e ela mostra os dois se beijando. Isso ofendeu várias pessoas que acreditam que ambos não fariam uma coisa dessas. Quem sabe? Nós podemos apenas especular. Embora se possa afirmar que Charlotte, de fato, se apaixonou por Monsieur Heger, o resto é especulação.

Existe evidência de que Constantin Heger respondeu às cartas de Charlotte? 

Não há provas físicas de que ele tenha escrito, mas elas podem estar perdidas. As pessoas gostam de pensar que Charlotte pode tê-las enterrado como Lucy fez em Villette. Existem quatro cartas conhecidas de Charlotte para Heger. Em uma delas, ela se refere a uma carta que ele escreveu. Portanto, mesmo não havendo evidência física, ele deve ter escrito, senão, por que ela falaria da carta? De qualquer forma, um dia elas podem aparecer. Gostaria de destacar que ela pedia a ele uma carta, sempre pedia, quase implorava, aliás, tudo o que ela podia fazer era pedir uma carta, como todos sabemos, o amor é cego, e ele pode ter respondido sim. 

Você me falou sobre uma outra carta perdida. Qual? 

Eu acredito que havia também outra carta de Charlotte para Heger, uma quinta carta, que também se perdeu . Estamos atrás dela. Na verdade, meu amigo Brian Bracken, que descobriu o manuscrito perdido de Charlotte, L’Ingratidão, me contou sobre a evidência dessa quinta carta de Charlotte. 

Charlotte era uma pessoa melancólica por natureza, você acredita que ela escolheu um homem casado para amar numa tentativa inconsciente de manter aquele estado de tristeza? Pois, de fato, ela sabia que se tratava de um amor impossível. 

Eu acho que, realmente, não se pode escolher por quem se apaixonar. Também acredito que ela teria gostado de se apaixonar por um homem solteiro. De qualquer maneira, era um amor impossível, você tem razão. Não podemos nos esquecer de que Monsieur Heger era um homem casado, com algumas crianças muito jovens. Muito bem casado, aliás. Contudo, como falei, não escolhemos por quem nos apaixonamos, mas Charlotte deve ter sabido que, de fato, era um amor totalmente irrealista. E o mais importante, claro, é que ela produziu um maravilhoso romance com isso tudo, pois Villette é espetacular. Muito bom ouvir agora que existe uma tradução brasileira.  

Você acredita que pode ter havido algum contato físico entre Charlotte e Monsieur Heger? Insisto: é possível que ele a tenha amado também? Qual é o seu sentimento sobre isso? 

Concordo com Jolien Janzing, que escreveu De Meester, que pode ter havido um beijo. É possível. Mas, não há ainda como afirmar isso. No entanto, eu não acho que ele a amava. Ambos eram grandes mentes intelectualmente atraídos um pelo outro. Mas, fisicamente ela não era uma mulher atraente. 

Charlotte Brontë

Elizabeth Gaskell, na biografia de Charlotte Brontë, omite a paixão de Charlotte por M. Heger, contudo, sabemos que Gaskell o visitou, que leu as cartas restauradas por sua esposa, pois ele as tinha rasgado e jogado no lixo, então, por que a Sra. Gaskell falhou? Você acredita que foi a pedido de Patrick Brontë ou de Arthur Bell Nicholls? 

Não. O pai e o marido de Charlotte não influenciaram a Sra. Gaskell em que escrever, isso é um fato. O irmão Branwell, o reverendo Patrick Brontë e Arthur Bell Nicholls foram três homens que sempre tiveram uma má reputação, em parte, graças a Sra. Gaskell. Eles foram os bodes expiatórios. A Sra. Gaskell, na biografia, cita seletivamente partes das cartas. Ela fez tudo o que podia para não parecer que Charlotte tinha uma paixão por Heger. Ela tentou fazer de Charlotte uma santa. E, é claro que a revelação dessa paixão teria danificado a reputação de Charlotte. 

Imagina, naquela época, se as pessoas soubessem que ela havia se apaixonado por um homem casado e, ainda por cima, um católico? Seriam dois escândalos para uma Inglaterra protestante. Pode ser também que Charlotte sequer admitisse para si mesma que ela fosse apaixonada por ele. Portanto, na biografia, que tem seu peso, é lógico, a Sra. Gaskell culpou muito da infelicidade de Charlotte, demonstrada nas cartas, aos problemas do seu irmão, o Branwell. Dessa forma, ela conseguiu esconder o problema real.

Que tipo de homem era Constantin Heger? 

Ele está descrito em Villette. Monsieur Paul é o protótipo dele, cem por cento.

Sabemos que Monsieur Paul Emanuel foi inspirado em Constantin Heger, mas, em sua opinião, Mr. Rochester e os outros personagens masculinos criados por ela?

Sim. Mr. Rochester também foi inspirado em Constantin Heger. Eles eram idênticos na rudeza, ao mesmo tempo eram doces e sensíveis. Eram inteligentes; aliás, todos os personagens dela o eram. Ela não criaria um herói obtuso. Também eram pessoas de bom caráter. Há diversos traços do professor em todos os personagens masculinos de Charlotte Brontë. Não podemos nos esquecer de que Mr. Moore, de Shirley, é da Antuérpia, na Bélgica. Será coincidência? Sem mencionar a obra O Professor, também autobiográfica e um ensaio para Villette.

Madame Heger e Constantin foram casados por quanto tempo? É verdade que ela foi a segunda esposa de Constantin? 

Ele tinha sido casado por alguns anos, mas a sua primeira esposa morreu, em 1835. Ele logo se casou com Madame Heger e ficaram juntos até a morte. Então, eles ficaram casados por mais de cinquenta anos. Ela sempre, e injustamente, teve má reputação. Mas, acho que ela se comportou muito bem e de forma discreta. Ela era a diretora da escola, além de esposa dele. Eu lhe pergunto: o que você faria em sua posição, visto que a inglesa havia caído de amor pelo seu marido? 

Após a morte de Charlotte, fala-se que Heger mostrou com orgulho as cartas para os turistas que passavam para vê-las? Isso é verdade? 

Sim. Em anos posteriores, Heger conversou com visitantes sobre Charlotte. Isso mostra que ele tinha orgulho de ter sido o mestre dela e até de tê-la tornado uma escritora melhor. Os anos que ela passou em Bruxelas foram fundamentais para a sua carreira como autora. Sem as aulas de Monsieur Heger ela não teria escrito tão bem. Ele era professor de literatura francesa, então Charlotte estudou grandes nomes, como Victor Hugo, por exemplo, e muitos outros. 

Existe alguma evidência de que Monsieur Heger e a esposa leram Villette? 

Não há evidência física, mas eu acredito que eles leram sim. Em 1855, havia duas traduções piratas de Villette, publicadas em Bruxelas, e havia apenas uma tradução oficial em francês. 

Qual foi a descoberta mais recente sobre Charlotte Brontë? 

A última descoberta foi feita por meu amigo Brian Bracken, que também é um grande pesquisador. Brian vive em Bruxelas, o que torna tudo mais fácil, é claro. Foi ele quem descobriu o manuscrito perdido Charlotte, L’Ingratidão, que ela escreveu para sua fonte inspiradora, Monsieur Heger. L’Ingratidão foi escrito por ela em 16 de março de 1842, é o primeiro conhecido pedaço de lição de casa dada a ela por Heger. Brian o encontrou no Musée Royal de Mariemont um século depois da última pessoa ter ouvido falar nele, que foi em 1913, ocasião em que foi dado a um rico colecionador belga pelo filho de Heger, Paul.  Certamente haverão novas descobertas. As cartas de Heger para Charlotte, por exemplo. Seria maravilhoso se aparecessem.

Entrevista por Chirlei Wandekoken

Veja as obras de Charlotte Brontë já lançadas pela Pedrazul Editora:
Shirley (2ª Edição) – Capa comemorativa 200 anos de Charlotte Brontë
Shirley (2ª Edição) – Capa tradicional
Villette (2ª Edição)

Veja as obras de Anne Brontë já lançadas pela Pedrazul Editora:
A Inquilina de Wildfell Hall

Esposas e Filhas – Elizabeth Gaskell

Gaskell

“A obra-prima de uma vida”
Por Enza Said.

Esposas e Filhas foi o último romance de Elizabeth Gaskell; obra cujo último capítulo jamais foi conhecido devido à morte precoce da escritora inglesa. De todo modo, os destinos dos personagens já haviam sido definidos pouco antes de forma que não ficou difícil de imaginar o belo desfecho jamais escrito pela mão habilidosa de Mrs. Gaskell, com seu jeito único e afetuoso de trazer cenas mais comoventes à vida.

O editor da revista Cornhill, na qual o romance era publicado em série, adicionou seus comentários acerca das intenções reveladas por antecedência pela própria Gaskell para o último capítulo do que seria, segundo ele, “a obra-prima de uma vida” e que acabou se tornando um “memorial da morte”. Eu acredito que Esposas e Filhas foi a obra-prima de uma vida. Trata-se de um romance tão grandioso, embora singelo e despretensioso; tão ousado e, no entanto, prosaico e, aparentemente, simples…

Elizabeth Gaskell
Aliás, é na simplicidade (e, por que não, ingenuidade) da protagonista Molly Gibson que Elizabeth Gaskell conquista o leitor mais uma vez e o apresenta a uma série de figuras pitorescas – ou nem tanto – do interior da Inglaterra vitoriana em que vivia e conhecia tão bem. É verdade, Esposas e Filhas é ambientado na cidade interiorana de Hollingford onde Molly e seu pai viúvo vivem. Ele é o médico das famílias que habitam naquelas áreas e, em virtude da profissão, também possuía relações com as famílias da alta sociedade do lugar, incluindo os nobres Lord e Lady Cumnor e o tradicional fazendeiro Hamley e sua esposa.

A história começa com uma pequena Molly visitando Towers, a grande propriedade de Lord e Lady Cumnor, onde a ex-governanta das filhas do conde acabou negligenciando-a e se “esquecendo” de enviá-la de volta para casa. Mas seu pai a reencontra e tudo acaba bem. Anos mais tarde, Mr. Gibson estava incomodado com as atenções que um de seus pupilos estava dedicando à sua jovem e ingênua filha e a enviou para passar uns dias com a esposa do fazendeiro Hamley, que desejava há tempos conhecer a filha de seu médico.

Molly logo encantou e se afeiçoou profundamente aos Hamleys e, aproveitando sua distância, Mr. Gibson decidiu que precisava arrumar uma nova mãe para instruir, proteger e guiar Molly nessa nova fase de sua vida. Ele logo elegeu aquela que a havia negligenciado anos antes, a ex-governanta das filhas de Lord e Lady Cumnor: Mrs. Kirkpatrick.

Assim que recebeu a notícia, Molly se entristeceu bastante e não conseguiu evitar um choro de desespero e da dor do reconhecimento de que tudo seria diferente dali para frente com seu pai e sua nova esposa. É neste estado de angústia que Roger Hamley – o filho mais novo e menos brilhante do fazendeiro – encontrou-a. O rapaz, contudo, não tardou em se compadecer e consolar a mocinha. Esse foi um dos meus momentos favoritos no livro, foi tão doce e tão puro, inocente e genuíno do jeito que só Gaskell poderia escrever.

“Ela nunca tinha dito a ele uma sentença tão longa. Ao dizê-la, embora ela não tirasse os olhos dele, pois estavam olhando fixamente um para o outro, ela corou um pouco sem saber por quê. Nem ele sabia explicar por que um prazer repentino tomou conta dele, enquanto olhava para o rosto simples e expressivo dela. Por um momento, ele perdeu a noção do que ela estava dizendo por sentir pena dela, por sua tristeza. No momento seguinte, ele já era ele mesmo de novo. Sentiu-se como se fosse o jovem mais sábio de vinte e poucos anos a aconselhar uma menina de dezessete.”

O casamento de Mr. Gibsom com Mrs. Kirkpatrick não tardou a acontecer e, após ele, toda a sorte de eventos inimagináveis para Molly há menos de um ano se sucederam: a filha de Mrs. Kirkpatrick, Cynthia, chega e se torna uma irmã para ela, junto com seus inúmeros pretendentes; a descoberta de segredos acerca do primogênito dos Hamleys, Osborne; uma amizade da nobreza; escândalos envolvendo um administrador de propriedade de moral duvidosa; traições e mais uma série de acontecimentos tão cativantes e bem escritos que tornam, de fato, Esposas e Filhas uma obra-prima.

Gaskell
Como disse o próprio editor da Cornhill Magazine, “[…] o leitor sente-se preso num mundo perverso e abominável, rastejando no egoísmo e fedendo a paixões vulgares, no qual há muita fraqueza, muitos erros, sofrimentos longos e amargos, mas onde é possível que as pessoas levem vidas calmas e saudáveis e, o que é mais importante, que sintam que este mundo é tão real como o outro. As páginas irradiam este espírito amável que nunca deseja o mal e, enquanto as lemos, respiramos a inteligência pura que prefere lidar com as emoções e paixões que têm uma raiz viva na mente, dentro dos limites da salvação, e não naquelas que apodreceram sem elas. Este espírito é mais declarado especialmente em Prima Phillis (também lançamento da Pedrazul) e Esposas e Filhas, as últimas obras da autora. Elas parecem mostrar que para ela o fim da vida não é descer os torrões do vale, mas subir para o ar puro das montanhas que ascendem ao céu”.

Eu não poderia discordar ou dizer melhor. Apaixonei-me por Esposas e Filhas desde a primeira página e me irritei muito com as manias afetadas e a hipocrisia da nova esposa de Mr. Gibson, embora tenha compreendido e sentido pena deste seu jeito intolerável quando o final do livro se aproximou. Quanto a Molly e Roger, só poderia dizer que eles ocupam um espaço muito querido no meu coração e até agora não consigo parar de suspirar ao me lembrar da doçura e humildade de uma e da gentileza e do cavalheirismo (a seu modo) do outro. Mas se tem um personagem que me conquistou neste livro foi Mr. Hamley, o irascível fazendeiro que tinha um coração enorme. Desde o início eu percebi como ele se importava com os filhos, como ele queria dar a eles tudo o que ele não pôde ter e que internamente se repreendia e julgava por não ter tido, como ele era carinhoso com a esposa, admirava-a, e como havia sido tão gentil e acolhedor para Molly. Apesar do seu jeito meio bruto de um proprietário de terras pouco instruído, ele era uma pessoa essencialmente humilde, embora possuísse algumas poucas razões para se orgulhar e nas quais depositar toda a sua vaidade. Acredito que, por essas e outras razões que fogem até mesmo à minha compreensão no momento, ele tenha sido o personagem a quem mais me apeguei, apesar de ter gostado muito das solteironas Miss Brownings e sua irmã Miss Phoebe, a própria Mrs. Hamley, Mr. Gibson, Roger e Molly também.

Gaskell realmente tinha um dom de retratar a sociedade da época e de criar personagens cativantes, bons e verdadeiros, apesar de suas falhas, não me admira que tenha sido tão estimada em seu tempo e seja até hoje, eu mesma não pude evitar e reconhecer que, após esta linda obra, ela figura entre as minhas autoras favoritas.

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Esposas e Filhas é um livro adorável, melancólico em certos momentos, porém certamente divertido em sua maior parte e de uma beleza singela que encanta qualquer tipo de leitor, por isso, recomendo bastante.

“É correto esperar o melhor de todos e não o pior. Parece que é evidente, mas isso tem me servido até agora, e algum dia será útil. Devemos sempre tentar pensar mais nos outros do que em nós mesmos, e é melhor não pré-julgar as pessoas pelo seu lado ruim.”

Tradução: Ellen Bussaglia.
Ilustrações: George Du Maurier
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